Também é certo que o ex-vereador portuense, no final da entrevista (não muito bem conduzida, por alguém que parece pouco experiente, o que não lhe tira o mérito da iniciativa), se esquece – só pode ser esquecimento – de uma medida, também preconizada e frequentemente referida pelo Marinho e Pinto, que decorreria obrigatoriamente das suas declarações anteriores e que é capaz de ser a mais importante: a necessidade de legislação que proíba os senhores deputados de exercerem outras profissões (incluindo cargos partidários remunerados), acabando, assim, com a possibilidade de se gerar (pelo menos, porque há outros) este género de conflito de interesses.
Se os candidatos a cargos políticos ou, em geral, públicos, “acham” que as respectivas remunerações são baixas, em relação ao seu “nível de vida”, então não se candidatem: ser deputado é servir o país e os seus concidadãos, a tempo inteiro, jamais servir-se do cargo para defender outros interesses ou exercê-lo em “part-time”; e o vencimento de deputado chega muito bem para sustentar um nível de vida perfeitamente digno e, certamente, muito superior à grande maioria dos portugueses, pelo que o estafado argumento de a impossibilidade de acumulação “afastar os mais competentes” é ridículo, já que o simples facto de alguém não querer abdicar de um certo “status” económico-social desqualifica, de per si, qualquer pretenso candidato a um cargo político, por representar a confissão de que os seus interesses privados se sobrepõem ao interesse público que deveria, ao contrário, prevalecer…
Apesar destes pormenores, considero que o desassombro das afirmações produzidas por Paulo Morais merece, de facto, divulgação, até por não recear concretizar algumas situações assaz graves e nomear os seus “intérpretes”.
Paulo Rato
