UM CAFÉ NA INTERNET – Eva Cruz e Adão Cruz

 

 

 

 

 

 

 

Dois argonautas apresentam os seus novos livros no próximo sábado, como temos anunciado – CORCONTE, de Eva Cruz e VAI O RIO NO ESTUÁRIO, de Adão Cruz. Apresentamos em pré-publicação excertos de ambos os livros:

 

CORCONTE de Eva Cruz

 

O vento varria a solidão do planalto. Cansado, apeou-se o cavaleiro, brandindo no ar a espada reluzente. Uma armadura de pequenos anéis de aço cobria-lhe o peito robusto, temperado nas batalhas, um cinturão e um elmo na cabeça alongavam a sua imagem na sombra projectada pelo sol nascente. O cavalo bem tratado ajoelhou na terra batida, as patas dianteiras dobradas, a cabeça inclinada em sinal de rendição, implorando piedade pelo fraquejar das forças.

O cavaleiro era jovem e exímio na esgrima em torneios e combates. Deixara Roncesvales num desfiladeiro das montanhas bascas. Embalado pela canção de Roland, buscava a tenacidade do seu herói, atravessando montes e vales. Nunca nos seus ouvidos se calaram os sons da corneta que só tocava em momento de agonia, sons a que a lenda dá eco nas noites tempestuosas dos Pirinéus.

O cavalo dava sinais de cansaço. O cavaleiro fitou os olhos do cavalo, num misto de pena e desalento.

À volta pastavam rebanhos guardados por cães. Cavalos e éguas bem nutridas erguiam-se ao longe como esculturas na paisagem dominando o planalto em solene elegância. Bebiam água de regos e poças.

O ambiente era agreste. Frio como a friagem do ar. Sem árvores contra o vento. Ora densa, ora esvaindo-se, uma neblina misteriosa abria e fechava o palco de um cenário mítico.

Junto a um lago erguia-se uma cabana coberta de colmo. Lá dentro fumegava um caldo a cozinhar em lume brando. O cheiro e o fumo aqueciam o chão de terra e o tecto de colmo.

De olhos lânguidos o cavalo olhava as éguas com inveja de tanto vigor e viço.

O cavaleiro procurou abrigo na cabana do pastor. Recuperou forças com o caldo que cozia em lume brando, ao mesmo tempo que o homem dos montes lhe confiava o segredo daquelas águas e a magia daquele planalto.

 

Águas e ares que levantavam moribundos.

O cavalo só se mexia para beber água do veio de um regato ali à beira.

Três dias passados, decidiu o cavaleiro não esperar mais, abater o cavalo, enterrá-lo no planalto e comprar ao pastor um cavalo novo, daqueles fortes e velozes que levam o cavaleiro ao destino.

Levantou-se o sol abrindo a cortina de névoa que se erguia do lago. O cavaleiro bebeu leite gordo das cabras.

 

Cheio de pena olhou o cavalo bem de frente nos olhos molhados e desapareceu nas entranhas da neblina.

Rumo a Santiago, buscava o aumento das virtudes e a protecção dos céus, o prémio dos bem-aventurados.

Ficara o pastor com a tarefa de abater o cavalo quase moribundo.

 

VAI O RIO NO ESTUÁRIO de Adão Cruz

 

O meu poema azul

Não sei fazer uma rosa nem me interessa não sei descer à
cidade cantando nem é grande a pena minha

 

Não sei comer do prato dos outros nem quero não sei parar o
fluir dos dias e das noites nem isso me apoquenta

 

Não sei recriar o brilho do poema azul… e isso dá-me
vontade de morrer

 

Procuro para além das sílabas e dos versos a voz poderosa
mais vizinha do silêncio o meu poema azul… o suspiro de
Outono onde a brisa se aninha no breve silêncio do perfume
do alecrim lugar das palavras e dos versos no caminho do
teu rosto junto ao rio dos teus olhos onde a vida se faz poema
e o mar se deita nos lençóis de luz do fim do dia

 

Procuro para lá das sílabas e dos versos encontrar meu
barco à entrada do mar onde repousa teu corpo entre algas e
maresia meu amor perdido num campo de violetas

 

O meu poema é tudo isto que me vive que me ilude que me
prende ao lugar azul que procuro dia e noite por entre os
versos do meu ser

 

O poema mais lindo da minha vida ainda não nasceu não
tem asas nem olhos nem sentimento que o traga um dia o
vento se vento houver que a saudade o encontre onde ele
estiver

 

Dizem que no cimo dos pinheiros ainda é primavera mas
tão alto não chego mais à mão molho a minha camisa
primaveril no regato cristalino que vai correndo por entre os
dedos num solo de cores e violino

 

Não sei colher uma rosa nem sei descer à cidade cantando

 

Sou apenas aquele que ontem dormia sobre um poema azul e
das asas da ilusão se desprendia

 

Sou aquele que ontem se despia nos braços do poema que
vivia

 

Sou aquele que ontem habitava em silêncio
o poema azul que acontecia

 

Sou aquele que ontem sonhou em vão…com o poema azul de mais um dia

 

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