Pouco antes das últimas eleições locais na Hungria, um deputado de extrema direita pertencente ao grupo Jobbik dirigiu-se a uma empresa proprietária de um laboratório genético, a Nagi Gén, solicitando um teste através do qual pretendia averiguar a sua “pureza rácica”, isto é, se não tinha no seu genoma variantes que alegadamente o comprometessem com origens ciganas ou judaicas.
A empresa escolheu 18 marcadores, fez o teste e informou o cliente que poderia estar descansado, não estava “contaminado” com quaisquer antecedentes que manchassem a sua “pura” origem magiar. Um site húngaro elogiou a iniciativa do deputado qualificando-a como “nobre”, não podendo eu informar-vos se o adjectivo se aplica à diligência ou à origem do deputado assim garantida por via laboratorial.
Isto passa-se na Europa de hoje, na União Europeia de hoje, setenta anos depois das experiências sobre “pureza rácica” realizadas pelo dr. Josef Mengele em opositores políticos, judeus e não-judeus, e patrocinadas por Adolph Hitler, o chefe do III Reich. O dr. Mengele que não tinha então, infelizmente para ele, as disponibilidades científicas a que tem acesso a empresa Nagi Gén. Mas pode descansar em paz porque outros tomaram o facho das suas mãos.
Não é fácil considerar o deputado em causa como um “louco”, qualificativo com que tantos e tantos altos responsáveis europeus costumam arrumar estes comportamentos varrendo-os para debaixo do tapete enquanto torturam o quotidiano da maioria dos cidadãos em defesa da pureza germânica do euro. O Jobbik do nobre deputado é o terceiro partido parlamentar húngaro, tem quase 50 eleitos e recolheu a preferência de 17 por cento da população. O partido tem as suas milícias à imagem e semelhança das SA hitlerianas, não se sabendo muito bem se são legais ou ilegais, o certo é que existem, logo funcionam e actuam. Que o digam cidadãos húngaros vítimas de numerosos actos de violência cometidos durante os últimos meses por não terem, infelizmente para eles e com ou sem teste laboratorial, a “pureza rácica” do nobre eleito.
Na Hungria e fora dela debate-se a situação, em boa verdade sem o vigor e a urgência que estes comportamentos deveriam suscitar. Discute-se a ética ou falta dela, a própria empresa Nagi Gén procura justificar-se dizendo que “não seria ético” – e muito menos rentável – corresponder ao desejo do cliente.
Serão estes os verdadeiros centros da discussão, por muito respeitáveis que nos pareçam? Creio que é necessário ir bem mais longe. O Jobbik conseguiu a sua votação num quadro dominado por uma maioria absoluta do partido do primeiro ministro Viktor Orban, ele mesmo sintonizado com a extrema direita e o mais reacionário nacionalismo húngaro com ressonâncias medievais e saudoso do idolatrado Santo Estêvão, que viajou do século XI para a imagem de marca da Hungria de hoje.
A mesma mentalidade medieval que guiou o colaboracionismo terrorista húngaro durante a ocupação hitleriana e que o Jobbik hoje reproduz não apenas impunemente mas com visível recompensa. Enquanto isso os dirigentes europeus castigam sem piedade os cidadãos em nome da pureza económica neoliberal, semeando com êxito o desespero com que milhões deles são empurrados para o regaço da extrema direita achando que os seus “inimigos” de fresca e longa data são os imigrantes, conceito onde, por deriva generalizada, cabem ciganos, judeus, árabes, africanos, no fundo todos os que, vindos sabe-se lá de onde, só servem para “roubar os nossos empregos” – todos os dias se escutam frases como esta até à exaustão.
Um dia, provavelmente, os Jobbik, seus pares e outros herdeiros de Hitler e do dr. Mengele irão buscar a casa ou aos gabinetes, mesmo sem testes genéticos, os herdeiros dos dirigentes europeus, talvez ainda os próprios, para implantar a nova “pureza” europeia. Aos actuais dirigentes europeus ser-lhes-ia útil ler Brecht antes da tormenta… Ler?… Ler quem?…

Exactamente! Não diria que andamos a brincar com o fogo, mas andamos perigosamente a ignorá-lo e já há sinais bastante alarmantes.