Uma doença social, originando gritos de alarme aos quais se responde com terapias políticas inócuas e de fachada, percorre as sociedades pós-industriais: desemprego é o seu nome. A crise financeira que eclodiu em 2008 e cujo fim não está à vista, tendo destruído milhões de empregos, serve de álibi para um discurso que pretende fazer crer que o desemprego é um efeito dela, um mal conjuntural que pode ser curado se a ordem económico-financeira retomar o curso e a velocidade de que necessita para se manter. Para combater o mal, a Esquerda e a Direita apresentam o mesmo remédio: o regresso ao crescimento. A diferença está apenas no modo de o administrar: a Direita aposta sobretudo na redução dos custos salariais, na flexibilidade e nos processos de reengineering; a Esquerda aposta sobretudo nos impulsos vindos do Estado e numa maior justiça na distribuição da riqueza (mas quase não questionando o modo como ela é produzida). De um lado e de outro, por conveniência ou por ignorância, reina um enorme silêncio sobre aquilo que se tornou tema de um debate fecundo nas ciências sociais, pelo menos desde meados dos anos 80:0 fim da “sociedade de trabalho”, a tese de que o trabalho- emprego (o trabalho assalariado, essencialmente) chegou a uma fase de redução drástica porque as tecnologias que substituem os homens são cada vez mais eficazes, mais numerosas e mais difundidas e tornam possível produzir vez mais,utilizando cada vez menos trabalho. Deste modo, tornou-se completamente irrealista sonhar com uma sociedade de pleno emprego — uma sociedade na qual cada um podia esperar ter um lugar uma utilidade e um futuro — e o que a investigação social, há mais de duas décadas, percebeu que a estava a passar mas ainda não se apresentava à vista desarmada, pode hoje ser observado por qualquer pessoa atenta. A tendência, irreversível, é para uma ordem social em que temos, de um lado, uma elite do trabalho (já não o trabalho de massa, mas o trabalho que opera com o conhecimento e o produz) e, do outro, uma massa crescente de trabalhadores pobres (que ocupam o que resta dos sector e que requerem o trabalho tradicional), de precário e intermitentes, de desempregados. Este cenário foi descrito em 1995 por um economista americano chamado Jeremy Rifkin. num livro intitulado “The End of Work”, que gerou muita polémica e teve uma repercussão enorme tanto no Estados Unidos como na Europa. E, noutra latim de geográfica e ideológica, tentando pensar par além da sociedade de trabalho, um grande sociólogo e filósofo naturalizado francês, nascido na Áustiria, André Gorz, descreveu esse mesmo cenário fez dele o ponto de partida da sua vasta obra sobe o trabalho, as suas metamorfoses e as representações políticas e sociais que lhes podem dar resposta (um dos seus livros fundamentais é “Métamorphe ses du travail”, de 1988). Também sobre a hipótese de estarmos a caminhar para uma sociedade sem trabalho dedicou a revista “Esprit” o número á agosto/setembro de 1995. Enfim, a bibliografia sa bre o tema é abundante e não começou a ser publi cada hoje. pelo que é difícil perceber por que razão o discurso politico se mostra tao impermeavel aos debates de que esse tema tern sido object° nas den-cias socials, desde ha mais de vinte anos. Podemos. alias, recuar a uma origem mais distante. a Han-nah Arendt. porque e dela o conceit° de “sociedade de trabalho” c porque foi eta. num livro de 1958 (The Human Condition”), que anunciou urns so-ciedade “liberta das grilhetas do trabalho”, mos-trando ao mesmo tempo algum receio de que nao valesse a pens conquistar essa liberdade: “0 que temos a nossa frente 6 a perspetiva de uma socieda-de de trabalhadores sem trabalho, isto C. privados da tinica atividade que Ries resta. Nao podemos imaginar nada de pior”. Um postulado ideologic° fundamental em que o poder politico persiste 6 o de que os empregos des-truidos sum sector sao substituidos por outros. cm novos sectores. Ora, Rifkin mostra que, se isso foi verdade nas duas primeiras fases do capitalism°. no tempo da primeira e da segunda revolucao indus-trial. nesta terceira rase, a da informacao e do conhe-cimento. tat j nao acontece. 0 fim do campesinato
deu lugar aos operarios; o fim do operariado (em 2025. diz Rifkin, os operarios, em todo o mundo, estarao reduzidos a 2%) foi compensado no Ultimo mcio seculo pelo sector dos servicos. Mas isso — afir-mou Rifkin em 1995 c podemos confirma-lo hoje — acabou: bancos, seguros. comercio, telecomunica-goes expulsaram pars o mercado de trabalho mi-lhOes de pessoas. E quern julgue que o trabalho se deslocou para outros lugares do planeta esta engana-do. No prefacio que escreveu para a edicao de 2006 do seu livro, Rifkin informs que a China eliminou, nos sete anos anteriores, IS por cento dos postos de trabalho. A razao C simples: por muito baixos que
Já saimos efetivamente da do trabalho, mas continuamoi politicamente e socialmo se ainda vivesse E este desfasamento sejam os custos do trabalho, eles são sempre superiores aos custos das tecnologias que o substituem. E assim chegámos a uma fase do capitalismo em que. ao contrário do que todo o discurso político, da Direi-ta e da Esquerda, nos quer fazer crer (e, o que é pior. sobre o qual assenta toda a ação política e gestionária), a chamada “recuperação” ou “retoma” já não equivale a um aumento significativo do emprego. Pe-lo contrário, o sistema só recupera prosseguindo a sua lógica de eliminação do trabalho. Esse princípio neoliberal, que a realidade tem desmentido, de que as novidades acabam por criar tanto trabalho quanto aquele que destroem, encara o desemprego mais como um deslocamento de actividade do que conto urna supressão do emprego. Isso está bem patente nas afirmações recentes de Passos Coelho sobre as oportunidades que se oferecem aos desempregados. Mas já anteriormente o programa formativo das “Novas Oportunidades” pressupunha, como se percebe pelo nome, que a requalifica-ção profissional é o fator que permite ao desempregado entrar numa nova atividade. Que o capitalis-mo tornou caduca a sociedade de trabalho, algo que os políticos não querem ver nem imaginar, são os próprios capitalistas que o dizem. Ainda recentemente, numa conferência, o multimilionario ameri-cano Nick Hanauer, disse que “um consumidor da classe média cria muito mais emprego do que uns capitalista conto eu”. Esta afirmação foi relatada em vários jornais quando os responsáveis da funda-ção onde Hanauer tinha feito a conferência se recu-saram a publicar o vídeo da palestra. Tinham razão: nem os políticos de Esquerda ousam dizer tal coisa. De resto, este capitalista americano limitou-se a re-petir mais ou menos o que há 25 anos tinha dito uni diretor da empresa alemã IG Metall: que o investi-mento não cria mais emprego, pelo contrario, supri-me-o. E em 1.895 teve lugar em São Francisco o pri-meiro “State of the World Fortim”, onde estiveram presentes algumas centenas de pessoas poderosas, de todo o mundo, para discutir o que fazer no futu-ro com 80% da população que será inútil para o sistema de produção. Perante este quadro de rarefação do trabalho. tanto Rifkin como Goa (devemos acrescentar que eles só admitem esta aproximação um do outro tra-tando-se de questões muito gerais) defendem uma redistribuição do trabalho, isto é, unia diminuição do horário de trabalho (para 30 horas semanais, pra’ põe Rifkin) para que mais pessoas tenham acesso a ele, ou, na proposta mais radical de Gorz, não só uma redução drástica, mas também uma maneira muito mais livre de distribuir o trabalho ao longo da existência de um indivíduo. Mas não se trata, para ambos, apenas de reduzir o tempo de trabalho: trata–se de inventar urna nova politica e uma nova ideologia cultural e social. -um novo Renascimento”. diz Rifkin, que transforme o fim do trabalho não num pesadelo mas numa nova organização social que re-pensa o próprio conceito de trabalho (ele desenvol-ve então uma complexa teoria que postula uma no-va sociedade civil, capaz de criar milhões de novos postos de trabalho, precisamente porque não obede-ce a unta lógica do lucro). O que estes pensadores deixam muito claro é que já saímos efetivamente da sociedade de traba-lho. mas continuamos a pensar politicamente e so-cialmente como se ainda vivêssemos nela. E este des-fasamento é catastrófico e incapaz de estar à altura da urgência de um novo contrato social. Nós, recen-temente confrontados com medidas políticas que au-mentam o tempo de trabalho quando o desemprego atinge máximos históricos insustentáveis, podemos perceber muito bem o que Goa denunciava como uma incapacidade de pensar, ver e imaginar de mo-do a destituir o trabalho da centralidade que ele ad-quiriu na modernidade. Sim, porque o trabalho, tal como nós o entendemos, não ê uma categoria antro-pológica, é unta invenção moderna, do capitalismo industrial. Percebê-lo como um fenómeno recente, conto uma construção histórica, é uma condição si-ne qua non para ultrapassa-1o. Tentos assim um paradoxo a que Goa se referiu e que entretanto se tornou muito mais presente: quando o que era necessário era pensar o fim do trabalho e o que pode estar para além dele (por exemplo, uma promessa de emancipação como em nenhum outro momento da História), quando o capi-talismo se baseia naquilo a que Marx nos Grundrisse chamou, recorrendo ao inglês. o general itztellecr (is-to é, o saber em geral, a informação, a comunicação linguística), quando o trabalho já não pode servir de I fundamento à integração social, assistimos no entan-to ao renascimento de uma submissão dos trabalha-dores a unta condição servil que tinha sido abolida depois da Segunda Guerra Mundial. Se a mensagem ideológica da sociedade salarial não era muito satisfatória (Gorz formula-a assim: “Pouco importa de que emprego se trata, o importante é ter um”. isto é, o importante é ter um salário no fim do mês), aquela que passou a dominar é esta: “Pouco importa o montante do salário, desde que tenha emprego.” O emprego passou a ser o que se tem ou não se tem. Mas a situação real não é a sua falta, já que é possível produzir cada vez mais riqueza com menos traba-lho. Por isso é que é preciso deixar de pensá-lo como o que falta e começar a vê-lo como o que está a mais e precisa de ser retirado do centro da organização e do contrato social — um desafio com o qual a política que temos. mera gestão do que existe, não se quer confrontar. A
O emprego passou a ser o que se tem ou não se tem. Mas a situação real não é a sua falta, já que é possível produzir cada vez mais riqueza com menos trabalho
