EM COMBATE – 115 – por José Brandão

Só no ano passado eu analisei melhor a operação atrás descrita e as conclusões foram as seguintes: 1 – O ataque anterior foi a 31 de Julho de 1969. 2 – Esta emboscada foi a 21 de Agosto de 1969, também ao anoitecer. 3 – A emboscada feita pelo meu grupo foi perfeitamente rotineira, de protecção exterior ao aquartelamento. 4 – O comandante de companhia encontrava-se ainda de férias na metrópole neste dia, ficando a substituí-lo o alferes mais velho. 5 – O inimigo não ia de passagem para outras paragens, mas sim atacar o quartel do Olossato mais uma vez. O contacto com o inimigo foi portanto acidental. Imagine-se agora que a nossa força no terreno era superior a um grupo de combate e com melhor armamento e que estávamos a emboscar, não em rotina, mas aguardando intencionalmente a muito provável chegada do inimigo.

 

Eles não tiveram reacção digna desse nome porque foram completamente surpreendidos com o contacto, quase tanto como nós, diga-se em abono da verdade. Por isso mesmo, apesar do pesado revés nas suas intenções e estratégia, uma grande parte do grupo conseguiu fugir ileso. De notar que os grupos IN em deslocação para ataques a quartéis, tinham uma fragilidade, iam carregados de material pesado e com dificuldades de movimentação, só voltando a ficar mais ligeiros depois de descarregar as munições em cima do aquartelamento. Se a emboscada tivesse sido premeditada e planeada de outro modo, o resultado seria outro, disso não tenho a menor dúvida. Raul Albino, ex-Alferes Miliciano da CCaç 2402/BCAÇ 2851. A actividade da CCaç 2402 em Mansabá. A actividade principal da CCaç 2402 junto ao BCAÇ 2851 em Mansabá consistia na protecção à capinagem e desmatação, efectuada por trabalhadores nativos, para preparar o terreno para a construção de estradas alcatroadas. Essa actividade, que já vinha de Có, viria a prolongar-se durante a estadia da companhia no Olossato, última etapa da nossa comissão na Guiné. Mas falemos agora neste período em Mansabá.

Fotografias – soldados do PAIGC.

 

Além do enorme ataque que sofremos logo no início da minha permanência nesta localidade, sede do Batalhão, a nossa principal senão única actividade na zona, foi precisamente a de protecção aos trabalhos de desmatação efectuados por trabalhadores nativos, como fase primeira antes do avanço das máquinas da Engenharia para romperem os caminhos e procederem ao alcatroar das vias, composto por várias fases, que em si também precisavam de protecção. A partir desta necessidade, todos os dias pela manhã, vários Grupos de Combate se deslocavam para o ponto em que no dia anterior tinham terminado os trabalhos, para dar seguimento à obra em curso. Ao anoitecer, maquinaria e tropas faziam o caminho inverso em direcção ao quartel para o merecido descanso.

 

Esta descrição parece uma rotina de actividades sem nada de interessante a acontecer, não fosse a particularidade de o nosso inimigo também ter uma rotina conjugada com a nossa e que consistia em esperar que as nossas tropas regressassem ao quartel para, senhores do terreno, aí implantarem um autêntico jardim de minas e armadilhas, especialmente anti-pessoais, com a intenção de desmoralizar as tropas e trabalhadores nativos e assim atrasar a obra.

 

No dia seguinte, perdia-se um tempo enorme a picar a estrada e as áreas periféricas, para levantar ou neutralizar as minas e tudo o que pusesse em risco a integridade dos trabalhadores, militares ou nativos. Todos os dias esta rotina se mantinha, de noite eles semeavam, de manhã nós colhíamos. Isto seria interessante se, volta não volta, não houvesse uma mina ou outra que rebentava, causando mortos ou feridos, tornando grande parte deles incapacitados por amputação de pernas.

 

 

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