1ª parte
A edição do programa “A Vida dos Sons” relativa ao ano de 1970 voltou a ser parca e mísera em assuntos de cariz cultural. Foram contemplados: a dissolução dos Beatles (com honras de abertura), a Exposição Universal de Osaka (Japão) e a conquista pela pianista Maria João Pires do Prémio Beethoven, em Bruxelas. Também foi passado o excerto de uma entrevista concedida por José Mário Branco a José Manuel Nunes que era para passar no programa “Página Um”, mas que nunca foi para o ar, por interdição da direcção da Rádio Renascença.
Desconhecia de todo a existência desta gravação, e aproveito para deixar aqui a minha nota de reconhecimento pelo oportuno resgate. Foi ainda feita referência (brevíssima) aos seguintes discos: “Traz Outro Amigo Também”, de José Afonso; “Cantaremos”, de Adriano Correia de Oliveira; “Com Que Voz”, de Amália Rodrigues; e “Amália-Vinicius”, de Amália Rodrigues com Vinicius de Moraes e outros amigos. O que não pode deixar de se criticar é que edições tão relevantes da História da Música Portuguesa tenham recebido uma simples e fugidia citação, ou seja, sem o mínimo desenvolvimento e sem qualquer ilustração sonora. Quer dizer: os assuntos relacionados com a política e com a guerra são tratados com toda a dignidade, ao passo que os culturais recebem uma breve nota à margem. Não posso, de forma alguma, concordar com esta atitude de considerar a actividade cultural matéria de segunda ou terceira categoria, mais própria de regimes autocráticos e obscurantistas. Será que as Sras. Ana Aranha e Iolanda Ferreira– que eu tenho como pessoas sem laivos ditatoriais, lúcidas e inteligentes – já se deram conta de que ao adoptarem tal atitude estão a fazer o jogo do inimigo e, ironicamente, a darem concretização à “profecia” de José Freire Antunes «o futuro de Portugal será amassado por filhos duradouros da cultura salazarista»?
Aqui fica a lista (não exaustiva, naturalmente) de factos ocorridos em 1970 que não foram devidamente tratados ou, pura e simplesmente, ignorados:
1. Falecimento do escritor e artista plástico José de Almada Negreiros; artista multifacetado, foi um dos fundadores do modernismo português, colaborando na revista “Orpheu” (1915), com Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro; nesta fase, ficou famoso o seu Manifesto Anti-Dantas, muitos anos mais tarde gravado pelo próprio autor
e depois, em 1978, por Mário Viegas;
para além da literatura, em que merecem destaque o livro de poesia “A Invenção do Dia Claro” (1921) e o romance “Nome de Guerra” (escrito em 1925 e publicado em 1938), Almada Negreiros distinguiu-se sobretudo no domínio da pintura, desenho e artes decorativas; as suas realizações plásticas mais conhecidas são os vitrais da Igreja de Nossa Senhora de Fátima (à avenida de Berna), os frescos das gares marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos, o retrato de Fernando Pessoa (sentado a uma mesa com o n.º 2 da “Orpheu”) e o painel “Começar” (no átrio da sede da Fundação Calouste Gulbenkian);
2. Falecimento do escritor Tomaz de Figueiredo; contribuiu para o ressurgimento da tradição romanesca camiliana, sendo a sua escrita caracterizada por um estilo onde o castiço se funde com o lirismo e por uma técnica narrativa singularmente moderna; da sua produção, destaca-se o romance “A Toca do Lobo” (1947), distinguido com o Prémio Eça de Queiroz;
3. Falecimento do matemático e filósofo britânico Bertrand Russell; notabilizou-se pelo seu trabalho na Lógica e na Teoria do Conhecimento; entre as suas obras contam-se “Principia Mathematica” (1910-13, em colaboração com Alfred North Whitehead), “O ABC da Relatividade” (1925) e “História da Filosofia Ocidental” (1945), que lhe valeu o Prémio Nobel da Literatura em 1950;
(Continua dentro de 15 minutos)

