DIÁRIO DE BORDO, 12 de Julho de 2012

 

As notícias que todos os dias nos caiem em cima são cada mais difíceis de compreender e de interpretar. Por exemplo, ontem lia-se no Público que o nosso país está prestes a ter um défice comercial positivo neste ano de 2012. Muito pequenino, mas positivo. Desde 1943 que a balança comercial não apresenta um saldo positivo. Será uma boa notícia? Talvez. Mas se a confrontarmos com outras, como o aumento previsto do desemprego, com a balança de operações de capital, com a quebra no consumo interno, com a contracção no produto interno bruto, obviamente que a impressão não é favorável. Na melhor das hipóteses, será uma notícia favorável no meio de uma série de notícias desfavoráveis.


Há uma contradição muito vincada entre um aumento de exportações e uma quebra na produção. Há uma conclusão muito evidente: há uma quebra no consumo interno. Parte da melhoria na balança comercial deriva não do aumento das exportações, mas sim da diminuição das importações, não se devendo inferir automaticamente que se trata de um sinal positiva. Por exemplo, tem havido crescimento na exportação de medicamentos. Sem dúvida, isso é bom para a nossa indústria. Aumenta a sua receita, cria mais emprego. Mas estará assegurado o abastecimento dos medicamentos que os nossos doentes necessitam? Diário de Bordo julga saber que há regras sobre esta matéria, cuja aplicação o Ministério de Saúde procura assegurar. Mas tem ouvido rumores sobre a saída do país de medicamentos cujo abastecimento tem tido falhas. Alguns até serão reexportados por assim alcançarem um preço de venda mais favorável. Esperemos que não seja verdade, mas toda a atenção é pouca. Aquilo a que alguns chamam economia de mercado, e outros chamam ganância, não dá tréguas. Outra situação é a que se passa com os combustíveis. Devido à quebra no consumo, claramente por causa do ataque que tem havido à carteira dos portugueses, tem havido um aumento nas exportações neste sector. Nalguns casos, também se tratará de uma reexportação. Entretanto, esta semana, nas bombas de gasolina, o preço que temos de pagar subiu três cêntimos por litro. Melhor dito, os que ainda conseguimos pagar.


O sector exportador é sem dúvida importante. Contudo, diz respeito a um sector restrito da nossa sociedade. Sem dúvida que esse sector merece ser valorizado. Mas não devemos tomar a nuvem por Juno, para recorrermos novamente á mitologia grega. O sector exportador é importante, mas não resolve tudo. Nem deve ser utilizado para ocultar os principais problemas do país, que são os problemas dos portugueses em geral, da maioria dos portugueses. O facto é que a recessão vai continuar, e a comunicação social também nos informa que para o ano vamos ter um desemprego ainda mais elevado.

 

Leave a Reply