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Adão Cruz As palavras
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Tenho muito respeito pelas palavras e pela verdade nuclear que as constitui.
Tenho muito medo de poder esvaziá-las ou atraiçoá-las.
As palavras, elas mesmas, têm necessidade de serem ditas, senão não passam de palavras, e eu tenho necessidade de as saber dizer, senão não passo de mero dizente.
Por outro lado, se as palavras têm um sentido para aquele que as diz ou escreve, podem não o ter para aquele que as ouve ou as lê.
O conceito de sentido é fundamental na comunicação.
E o sentido está dentro de cada um de nós e resulta da forma como respondemos interiormente às nossas experiências, que não é a mesma de cada um daqueles que nos lêem ou nos ouvem.
O sentido é fruto de um processo complexo em constante movimento, e ao transmiti-lo, nunca devemos esperar uma colagem pura e simples mas sim uma profunda integração consciente nos mecanismos construtivistas do sentido dos outros.
Vem isto a propósito do meu artigo anterior, a que dei o título de A ponte, onde tentei, com toda a honestidade, transmitir a minha verdade, não a Verdade. E falei das duas naturezas do ser humano, a natureza de carácter antropocêntrico e a sua natureza de dimensão universal, as quais, na realidade, são apenas uma.
O hipotético Big-Bang, em razão do pequeno desequilíbrio entre a matéria e a antimatéria, fez com que o Universo entrasse em expansão e, com ele, esta risível partícula de poeira chamada Homem. No confronto entre a resistência da condição humana e o movimento de fuga para fora dessa condição, tendente a dilatar o homem no infinito, residiria, como já disse, a interface onde a verdadeira vida se processa.
Não querendo abusar das palavras mas valendo-me delas com o máximo respeito que me merecem, eu diria que, sem perder a sua dimensão universal, o homem, dentro da sua natureza terrena, pode desenvolver uma luta racional e científica que o projecte para fora da sua estreiteza, prendendo-o ao amadurecimento da consciência social e ajudando-o a combater a indignidade e a perversão, os grandes males do mundo. Apesar de não ser o centro de nada, ele detém a força do equilíbrio ou do desequilíbrio da humanidade. E tem um enorme potencial de conhecimento acumulado, que pode permitir alcançar o equilíbrio ou aprofundar o desequilíbrio entre os homens.
O homem é um ser vivo com actividade própria em permanente interacção adaptativa com o meio. Possui uma força intelectiva e emocional, que o torna capaz de entender as realidades e transformá-las, transformando-se, ele próprio, dentro da sua sensibilidade intrínseca.
Assim como o seu fenótipo resulta de uma interacção e de um diálogo permanente entre o genótipo e o meio ambiente, ele, ontologicamente parte integrante do Universo, não pode fugir, inexoravelmente, à sua relação com o infinito. Por isso o homem não é um simples quantitativo nem uma soma, antes se constitui por um crescendo de saltos qualitativos que nos levam a reconhecer que o todo é sempre muito maior do que as partes, tanto no que às relações humanas se refere, como no que diz respeito à conquista da consciência da sua dimensão universal.



“Apesar de não ser o centro de nada, ele detém a força do equilíbrio ou do desequilíbrio da humanidade”Exactamente! Dois erros crassos em que o homem tem laborado no decurso dos séculos e que o têm arrastado pelas trevas espessas e gélidas da ignorância: achar-se o centro de tudo e não ter consciência da força que possuí!Como sempre, estimado Adão, está à vista a sua inestimável capacidade de usar as palavras no seu melhor, no mais preciso dos seus significados!Incondicionalmente de acordo consigo! Excelente texto!