
Bafatá – De Vila a Cidade
Chegou o dia do grande ronco. Um ronco como este, nunca se viu em toda a Guiné, desde Buruntuma aos Bijagós, desde Farim a Catió.
Ainda antes do alvorecer, gentes de todo o lado e de todas etnias da região marchavam em enormes grupos, engalanados com as suas bandeiras e cartazes patrióticos, em direcção a Bafatá, que ia ser elevada à categoria de Cidade. Sobretudo fulas, muitos fulas do Gabú, do Cossé, de Geba, de Piche, de Canquelifá, de Bambadinca, de Jabicunda, de Contúbuel, de Pirada, de Sare Bacar, de Cabuca de Canjadude, sabe-se lá. À frente de alguns desses grupos, o imponente régulo, a pé ou a cavalo, conforme as posses, mas de espada desembainhada, cinturão, talabarte, capacete colonial e galões de oficial de segunda linha. Tudo isso por cima do majestoso albornoz. As mulheres vestiam-se dos mais ricos trajes onde predominavam os panos coloridos e as sedas com borda-dos a ouro. Grandes brincos nas orelhas e pulseiras por quase todo o corpo. Cabeças enroladas em panos vistosos. Milhares de homens e mulheres vinham a pé, mas em festa, a tocar e a dançar.
Na vila, à medida que a multidão ia chegando, dançava-se freneticamente ao som dos mais variados instrumentos. Pequenas matracas, tambores, gaitas de cana, instrumentos de corda, enfim, tudo servia para impor a pequenos, grandes, ho-mens e mulheres a lei do ritmo, ignorando a música difundida pelos altifalantes espalhados por todo o lado. De quando em quando, figuras totalmente vestidas de capim contorciam-se e deambulavam pelas ruas ao som da música de fundo.
Lá em baixo, nos jardins junto ao rio Geba, sobressaía um enorme palanque que iria servir de tribuna para a grande cerimónia.
Junto à pista de aterragem e à placa de estacionamento de aeronaves, apinhavam-se milhares de pessoas em festa. Aqui, davam-se os últimos preparativos. O administrador fazia repetir as vezes que fossem necessárias até sair certo, uma manifestação espontânea na qual, parte seleccionada da multidão iria romper o cordão de segurança para saudar o «homem grande» que vinha da Metrópole e, assim, dar-lhe vivo testemunho da sua simpatia e fidelidade…
À beira-rio ao lado do palanque, nos fios da electricidade, pousavam alinhadas centenas de andorinhas, enquanto no ar, outras tantas evoluíam em grupos compactos, num sincronismo impressionante de au¬têntico bailado. Os meninos fulas da mocidade, farda¬dos de camisa verde e calção ama¬relo, com os bivaques castanhos nas cabeças, agita¬vam frenéticos as suas bandeirinhas verdes-ru¬bras, for¬mando alas à direita da bancada dos convi¬dados. Estes, à medida que che-gavam, procuravam, de convite em punho, o lugar que o protocolo lhes des¬tinara. Senhoras saídas do cabeleireiro, ves¬tidas e penteadas a preceito e cobertas de jóias, militares aprumados nas suas fardas brancas, clérigos de faixa púrpura, civis de fato es¬curo. Tudo a postos.
Num território contaminado pela guerra, a vila de Bafatá – Báfata, no dizer das gentes – era um autêntico oásis de paz e tranquilidade, bem no centro da Guiné. Situada na região Leste, era a terra mais distante de todas as fronteiras, o que a protegia dos tentáculos da guerrilha.
Embora pequena, era muito cosmopolita, dentro de critérios africanos. Numa posição central, onde as pessoas e bens podiam circular em razoável segurança e liberdade, Bafatá era o ponto de encontro e passagem de informações, gentes, mercadorias, culturas, religiões e interesses. Uma formosa povoação situada num esporão na confluência dos rios Geba e Colufe. Em cima, no planalto, estendia-se uma imensa tabanca desenvolvida à roda de uma belíssima mesquita de tijolos rendilhados pintados de branco. Este bairro nativo, onde o casario se misturava com palmeiras e enormes mangueiras, estendia-se até à estrada asfaltada que, vinda de Bambadinca, levava à vila de Nova Lamego. Na passagem por Bafatá, esta estrada era interrompida por uma rotunda decorada por um singelo monumento ao islamismo, em forma de portal árabe. Daqui descia, em direcção ao rio Geba, a avenida principal. Ainda no planalto, mais para sul, viradas para o rio Colufe, ficavam as missões católicas, bem como tabancas mais pequenas. Nas margens das muitas estradas e caminhos, viam-se lavras onde predominava a mancarra e a mandioca.
