O Expresso desta semana traz uma interessante reportagem sobre um concelho do interior, Arronches, no distrito de Portalegre, perto da fronteira. O trabalho centra-se no declínio demográfico do município, e sobretudo no seu envelhecimento. Arronches tem hoje pouco mais de três mil habitantes, mais de metade dos quais são pensionistas. Lá foi embora uma data de subsídios, o que não deve ter ajudado a terra. Tem perdido população nos últimos decénios, mas o aspecto mais notório é o seu envelhecimento. Diz–nos o Expresso que em 2011 faleceram mais de oitenta pessoas no concelho, enquanto que nasceram apenas oito, uma das quais registada em Portalegre.
Entretanto, numa caixa lateral, lemos que se calcula que em 2012, em todo o país, nos primeiros seis meses do ano, terão nascido menos quatro mil crianças do que em igual período de tempo do ano anterior. A continuar assim no segundo semestre, em 2012 nascerão menos de 90 000 crianças em Portugal, e teremos o número mais baixo de nascimentos desde o início do século XX, altura em que a população total era muito menor.
Arronches foi o concelho do país com menos nascimentos em 2011. Mas claro que a realidade que o Expresso nos apresentou é comum a muitos outros concelhos do interior do país. Uma realidade de estagnação, e mesmo de decadência, que se vem agravando desde há bastante tempo, é verdade. Mas não é exagero afirmar que tende a agravar-se, novamente.
Cerca de 1960, Portugal era um país jovem. O número de nascimentos era cerca de duas e vezes e meia superior ao actual. É verdade que o nível de vida era muito inferior, a começar pela esperança de vida que, na altura, era menos cerca de 15 anos do que actualmente. Os níveis de educação são muito melhores, tem de se referir. Mas o país não tem aproveitado essas melhorias. Os quadros políticos continuam a ser de má qualidade, com evidentes reflexos na condução da vida do país. As opções que se tomam agravam a tendência para o aprofundamento dos desequilíbrios, das desigualdades sociais, culturais e regionais. Um dos maiores graves é o que se pode resumir na frase: abandono cada vez maior do interior. Arronches é um exemplo, sem dúvida que dos mais evidentes.
A baixa de natalidade em Portugal terá vários factores. Mas o mais importante é obviamente a insegurança em que se vive. O atraso económico, o ambiente fechado que se vivia no país nos anos cinquenta/sessenta, a guerra colonial, a emigração em massa, estão na raiz dos problemas. A chegada da democracia contrariou o definhamento geral, mas a mal conduzida adesão europeia, o retorno dos poderes tradicionais, e agora a crise estão a acelerá-lo. A quebra de natalidade varia conforme as zonas do país, mas a tendência geral é de baixa. Seria ainda maior se não fosse a presença de grupos significativos de imigrantes. Entretanto o fluxo destes afrouxou e tende mesmo a inverter-se, voltando a haver mais emigrantes do que imigrantes.
Medidas a esmo, como a implantação de portagens nas auto-estradas por todo o país, cuja cobrança é confiada aos grandes grupos económicos em condições ruinosas para o estado, acentuam os desequilíbrios, e prejudicam as hipóteses de recuperação e crescimento. É difícil renovar a agricultura e ter mais indústria sem haver quem nelas invista dinheiro e trabalho. E tem de se apostar nas terras do interior, não só do litoral, para equilibrar os problemas do país. Os esforços de algumas câmaras municipais para fixar as pessoas são anulados por políticas de sentido duvidoso, que visam apenas obter receitas rápidas, que muitas vezes falham.

