MOURIR À MADRID – por Carlos Loures

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

MOURIR  À MADRID, o filme de Frédéric Rossif, na próxima sessão de “Vamos ao Cinema”.

 

Madrid 18 de julho de 1936.

 

É o dia da greve dos criados de café. Senhores engravatados, apesar do calor insuportável, protestam contra a desorganização social que, desde a queda da monarquia, se transformou em regra. Desde há meses que se fala, entre monárquicos e falangistas, da necessidade de uma «cruzada»…

 

Subitamente, a Rádio Tetuã emite a notícia –  as guarnições de Marrocos sublevaram-se contra a República. Os cabecilhas da sedição são quatro generais: José Sanjurjo, Emilio Mola, Queipo de Llano e Francisco Franco. A voz roufenha de Franco faz-se ouvir dizendo que a anarquia em que Espanha mergulhou, levava o Exército a  restabelecer a ordem. Subia o pano para a representação do drama.

 

 

 A década de 60 foi vivida por uma parte dos portugueses num sentimento misto de impaciência, medo e revolta. O regime salazarista continuava a impor princípios que, à medida que os anos passavam, acentuavam o desfasamento entre a realidade cinzenta e mesquinha e as radiosas utopias com que visionávamos o futuro do nosso País.

 

Nesses anos em que a Guerra Colonial se alargava por três frentes e as prisões políticas eram quase uma rotina, essa visão do futuro era filtrada por lentes diversas – para uns subsistia o exemplo soviético, para outros era da China que vinha a luz. Havia quem preferisse sonhar com um socialismo titista, beber em Enver Hodja ou em Kim Il Sum a sabedoria que iria ser a alma desse futuro.  Mas havia territórios comuns – a Cuba de Fidel e de Che e a evocação da República. Refugiávamo-nos na leitura, nos serões em que trocávamos informações e ouvíamos discos.  Criou-se todo um sistema de mitos, imagens, objectos de culto, liturgias, em que uma grande parte dos antifascistas comungavam, a despeito das suas diferenças. A Guerra Civil de Espanha integrava esse território. Todos cantávamos as canções republicanas. O L’Espoir, de Malraux era lido e relido.

 

Amigos vindos de Paris, em 1963 ou talvez 1964, falaram de um filme – Mourir à Madrid, de Frédéric Rossif. E em breve nos chegava, não o filme, mas um livrinho com fotogramas. E folheando repetidamente o livro, parecia-nos que tínhamos visto o filme – o assassínio de Lorca, o discurso demagógico, mas galvanizante de Dolores Ibarruri, o bombardeamento de Guernica, a heróica resistência das tropas republicanas, defendendo Madrid para lá do que parecia humanamente possível. Rossif usou neste que terá sido a sua mais importante obra, filmes de noticiários, de reportagens, preferindo as imagens reais às reconstituições, um trabalho de sábia montagem, em suma, explica como ocorreu esse período de três anos, entre as eleições que derrubaram a monarquia e o advento da ditadura fascista. Um documento fundamental para a compreensão deste negro episódio da história contemporânea.

 

É esse filme que apresentaremos na próxima sessão de “Vamos ao cinema”.

Leave a Reply