TRABALHO DE CAMPO E OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE EM ANTROPOLOGIA – 2 – por Raúl Iturra

É bem certo que Spencer (1859-1873-1933) procura na comparação social os elementos sociológicos do comportamento diferente das diversas etnias, mas é também certo que os outros esforços a este propósito são feitos na base de temas pontuais da problemática europeia, da sua passagem de uma sociedade regulamentada pelas relações de pessoas vinculadas a bens ou não pela propriedade rural e pelas relações com a divindade a uma regulamentada pelas mercadorias e pelo salário. Os europeus, durante trezentos anos, tentam perceber como é que são, pensam e agem; e assumir a sua própria nova sociedade dita igualitária, livre e fraterna, que não era assim mas também não era a de Deus e do Príncipe. À procura das respostas, de mecanismos sociais explicativos, é que se deita mão aos selvagens, na suposição cultural de que assim teria sido a Europa em tempos muito recuados; e as perguntas que são feitas dizem sempre respeito ao paradigma perdido do conhecimento: a mente, Deus, a lei natural. E aos novos problemas: a família nuclear, o casamento, a reprodução. • De facto, o que leva o dito primeiro investigador de campo com observação participante ao terreno, o polaco-austríaco inglês Bronislaw Malinowski, é a questão de se a família nuclear é ou não universal, e até onde os achados do seu professor da escola de Londres, Seligman (e de Haddon e de Rivers, Cambridge) sobre o direito materno entre os Melanésios da Nova Guiné Britânica, adiantam elementos de discernimento sobre as formas reprodutivas europeias. Só que Malinowski (1913-1922), com a mala de hipóteses na mão, descobre urna racionalidade tão diferente da suposta pelos antropólogos de gabinete que não pode deixar de assinalar que se sabia mesmo pouco acerca dos nativos — para provas, as eruditas suposições de Sir Edward Barnett Taylor (1881) sobre povos e religiões e as análises textuais de ritos e mitos de Sir James Frazer (1890). E então que define o oficio do etnógrafo e a necessidade do trabalho de campo com observação participante. O conjunto do conhecimento obtido até ao ano de 1922, data em que as regras do trabalho de campo são sistematizados logo no início do seu livro sobre os Massim (1922), passa a ser considerado um tipo de conhecimento não mais praticável.

 

Antes de ver o que é que ele diz, convém, no entanto, insistir numa ideia até aqui implícita neste texto: o sistema de práticas de conhecimento acerca de povos não europeus era designado ora por etnologia, ora por etnografia, ora subsumido na designação de antropologia, quer cultural quer social, e era dirigido a grupos sociais cujo estudo tinha como único documento eles próprios, a materialidade do facto de existirem, quer nas suas ideias, com as quais o seu mundo real é expresso, quer nos seus recursos e respetiva manipulação. Para um povo cuja forma de lembrar e conhecer se centra há já muitos anos na palavra escrita, a falta de texto coloca uma barreira no caminho do saber que se torna difícil de ultrapassar. E é em nome de um obstáculo tão grande como a falta dos meios habituais através dos quais a conduta social é conhecida que a solução é encontrada no fabrico de um texto através do testemunho de cada item do agir do selvagem.

 

A palavra deste não é suficiente; aliás não há garantia de que o que diz seja mesmo verdade. Afinal, como é dito de uma ou de outra maneira nos textos etnográficos, o nativo é um ente emotivo incapaz de perceber a totalidade da sua sociedade e do seu agir, uma vez que não tem outros elementos a não ser as metáforas para sobre ela se debruçar; e as metáforas e os rituais não são bem o real. A sua palavra não é suficiente. É preciso reconstruir a construção lógica por meio de outros instrumentos que, no seu conjunto, façam o documento. Estes instrumentos são fabricados a partir da participação na vida, tal como ela decorre na passagem do tempo, por parte do investigador, e são finalmente a ponte que traz à lógica do cientista as formas e os conteúdos da lógica e do agir do nativo.

 

O facto histórico de estudar relações sociais de povos com técnicas diferentes de reprodução do conhecimento criou a necessidade de participar na vida deles, observando continuadamente o terreno. Mais próxima ou mais distante da origem desta prática de estudo desenhada pelos limites que coloca o saber europeu, a observação tem regras que são derivadas do costume da observação. Costume esse que permite ao observador perceber que nas culturas orais é preciso tomar cautelas, já que há diferenças entre o que se diz que se faz e o que se faz. Estas diferenças derivam do processo da produção de conhecimentos que origina um repertório de ideias acumuladas no tempo, em símbolos memorizados de várias maneiras pelo conjunto do social. É típica a leitura do texto maori com que Mauss (1923) discute a categoria hau —e as releituras feitas por outros investigadores (e. g. Raymond Firth 1929) — da qual são feitas diferentes interpretações.

 

A questão é que, na época de Mauss, pouco se sabia dos Maori e dos seus mitos, enquanto que agora o contexto é mais claro. Estas observações destinam-se apenas a argumentar que a observação participante no trabalho de campo visa, por um lado, construir o documento e, por outro, acumular informação sobre o mesmo povo para contextualizar melhor o seu comportamento e, também, para que se possa adquirir saber através da comparação das formas culturais. Visa, em síntese, a produção do conhecimento de grupos sociais onde a técnica e/ou a tecnologia da lembrança e a contabilidade das relações sociais pela palavra e por símbolos diversos dos usados pela cultura letrada de quem procura conhecer coloca uma descontinuidade ou uma não correspondência de instrumentos, que são um obstáculo; obstáculo esse superado pela fabricação do texto através da observação dos diversos aspetos da vida tribal.

 

No conjunto, este desencontro entre tecnologias usadas na produção, lembrança e interpretação das relações sociais do povo estudado coloca o investigador habituado ao seu mundo de conhecimentos exatos — embora o mundo maori do hau seja também muito exato — numa posição de dúvida e até de alucinações culturais, enquanto não reduzir as possibilidades através do cruzamento da informação produzida por vários instrumentos diferentes. Um exemplo desta problemática é o investigador saber que o mundo é redondo e há norte e sul, enquanto que os povos que não foram treinados nas universidades europeias nem ouviram falar dessas coisas aos seus sábios, sabem que o mundo é no alto e em baixo ou da parte de cá da Anaconda e da parte de lá, ou dos vivos vivos e dos vivos mortos (vide Hugh Jones, C.S, 1979; Milagros Palma, 1984). O que leva o investigador a falar de geografia e de geografia mítica, por exemplo.

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