Datas das flagelações
6 de Maio 1970 – 28 de Junho – 3 de Julho – 11 de Julho – 20 de Agosto, 23 de Setembro.
3 de Agosto 71 – 15 de Outubro – 15 de Novembro
1.6 − Contacto com a população
A população civil de Dulombi rondaria os 250 habitantes. Era abúlica por natureza na linha da filosofia fatalista característica do povo fula. A agricultura era a sua única actividade produtiva e limitada, de forma incipiente, ao cultivo de mancarra, milho e arroz, produtos que não chegavam para satisfazer as suas necessidades.
Digno de registo na área social terá sido a construção de moradias para cada uma das famílias indígenas, inserida na política de reordenamento da população idealizada por Spínola, a construção duma mesquita e dum posto escolar e respectivo apoio didáctico através de professor recrutado entre um dos elementos da Companhia (Márinho), assistência sanitária dada pelos nossos enfermeiros e pelo médico do Batalhão, sempre que este se deslocava ao aquartelamento, bem como apoio alimentar através da distribuição regular de arroz pela população.
Sempre que uma coluna militar se deslocava, quer a Galomaro quer a Bafatá, havia o cuidado de proporcionar à população alguns lugares nas viaturas para que pudessem visitar os seus familiares que se encontravam nestas localidades, para fazerem as suas compras (embora o seu poder de compra fosse quase nulo), ou mesmo para darem a simples passeata. Só quando se sabia, à partida, que as viaturas no regresso viriam superlotadas com toda a espécie de géneros, aí essa benesse era banida mas explicada a razão.
Podemos considerar que os militares, após terem terminado os trabalhos de construção do aldeamento, passaram a ser a única “entidade empregadora” da população feminina, que prestava o serviço de lavagem de roupa.
Tudo isto contribuiu para que entre população e tropa se tivesse construído um ambiente de familiaridade sem incidentes de qualquer espécie.
1.7 − Análise da actividade
É digna de registo a forma sacrificada como todos vivemos, no início da campanha, em abrigos subterrâneos e por vezes alagados na companhia de alguns répteis, sem quaisquer condições de vida. Mesmo assim, conseguiu a nossa Companhia entregar-se de forma denoda à construção do aldeamento para a população ao mesmo tempo que decorria a construção do nosso aquartelamento e sem descurar a actividade operacional. Relembro que a equipa de pedreiros e carpinteiros que ajudaram a levantar tanto o nosso quartel como o aldeamento, foram recrutados entre os operacionais de cada um dos pelotões, do que resultou um emagrecimento em efectivos para a actividade operacional.
Na época das chuvas as estradas eram de difícil transitabilidade o que dificultava os nossos movimentos logísticos.
Durante os primeiros 6 meses (até 10 de Novembro 1971) o 4.º Pelotão esteve a reforçar o sub-sector de Galomaro e durante algum tempo, e de forma rotativa entre pelotões, assegurámos a protecção à aldeia de Cansamba. Por tudo isto, o nosso comandante de Batalhão salientou no seu relatório final “a maneira estóica” como suportámos as adversidades, quer através das frequentes flagelações, quer com o rebentamento das 3 minas a/c que nos causaram 5 mortos, “o que de modo algum quebrou a sua determinação de cumprir a “MISSÃO” que lhe fora imposta, não afectando o seu moral nem a sua capacidade de resistência e de valor combativo”.
Também por parte da Repartição de Operações do Comando Chefe das Forças Armadas a apreciação da nossa actividade operacional nos é favorável, sendo por várias vezes referida pelo tenente-coronel Mário Firmino Miguel, a “boa e bem orientada actividade geral”, salientando a amplitude de algumas operações realizadas “com efectivos perfeitamente ajustados à missão e à região” onde se desenvolveram. Mas como nem tudo são rosas, também no período entre 12 e 19 de Dezembro de 1971, notaram “precária actividade nocturna”. É que o Natal aproximava-se, e nestas alturas o instinto de defesa fica mais apurado. Ou então: “ausência de emboscadas sobre os eixos de aproximação IN”. Pergunto, alguém saberia quais eram os eixos de aproximação IN? Entre 15 e 22 de Novembro de 1970, “não foi efectuada qualquer acção de reconhecimento ao Rio Corubal”. Para quê? se nós já o conhecíamos tão bem.
