Conheci Reisele, a judiazinha brasileira, em Bucareste, durante o Festival da Juventude de 1953. Meti conversa, simpatizámos um com o outro. Marcámos reencontro em Paris.
Foi ali que a paixão nos incendiou. Convidei-a a casar comigo em Lisboa. Hesitou, pediu a opinião de uma outra brasileira sua amiga, mas numa língua que me era estranha. Perguntei-lhe e disse-me que era idish, a língua dos judeus da Europa Oriental.
E ainda que a palavra goi, que eu ouvira, significava não judeu. Parte da sua família emigrara da Polónia para o Brasil, antes da guerra. Os que ficaram, assassinados foram pelos nazis, duas dezenas entre os seis milhões. Holocausto que provocou a desconfiança dos sobreviventes contra gois desconhecidos.
Acabei por convencê-la: seguimos e casámos em Lisboa, apesar dos seus pais telefonarem exigindo que ela regressasse ao Brasil, porém solteira.
No casamento (apenas civil, é óbvio) estiveram os meus pais, os meus parentes e os meus amigos antifascistas.
Três meses depois, com a ajuda de um amigo meu que era comissário de bordo, iludimos a vigilância da PIDE e conseguimos embarcar para o Brasil.
Ao descermos no porto de Santos, toda a família da Reisele estava à nossa espera: pai, mãe, irmão, avós, tios e primos, talvez umas vinte pessoas. Um a um, a todos cumprimentei cortesmente. Porém frieza a enredar-nos. Nisto, a avó materna (que teria uns 90 anos) declama qualquer coisa em idish. Peço e a Reisele traduz:
– Quando já se cai de um cavalo, que seja de raça…
Sou tomado por um impulso. Relincho e pespego um beijo na bochecha esquerda da matriarca. Volto a relinchar e lá vai outro beijo na bochecha direita. Quebra-se o gelo, largam-se todos a rir. Ainda bem! Este goi acaba de ser aceite pelo clã da Reisele.
