DIÁRIO DE BORDO, 23 de Julho de 2012

 

 

O maniqueísmo foi uma doutrina criada por um profeta persa, Mani ou Manés, no século III da nossa era. Deu origem a uma seita, que foi considerada como gnóstica, isto é, que pretendia conhecer Deus  e a verdade religiosa. Parece que fundia princípios do cristianismo, do budismo e do zoroastrismo, e os seus princípios assentavam no eterno dualismo entre o bem e o mal. Que esse dualismo, defendiam, terá estado na origem do mundo, e que durará até à completa absorção do mal pelo bem. O maniqueísmo desenvolveu  uma cosmogonia popular,  estendeu-se por várias partes do mundo, e acabou em grande parte devido a uma feroz repressão incitada pelos sacerdotes de outras religiões.  Diz-se que Santo Agostinho antes de se converter ao cristianismo terá sido seguidor do maniqueísmo.


O facto é que existe uma certa semelhança entre os princípios desta doutrina e os das grandes religiões monoteístas. A divisão entre o bem e o mal, a oposição entre o céu e o inferno, entre o espírito e a matéria, são obviamente imagens maniqueístas. Na linguagem corrente, por vezes chama-se maniqueu ou maniqueísta àquele que vê o mundo a duas cores, que o resume a dois lados, um bom (normalmente é o do autor ou prosélito da doutrina), o outro mau. Na análise e na luta política o maniqueísmo é frequente, para não dizer dominante. Veja-se por exemplo o conflito Leste-Oeste. É fácil encontrar muitos exemplos de maniqueísmo enquanto durou, começando pela propaganda oficial. E quem a ele não aderisse, cuidado. Veja-se o caso de Andrew Young, político norte-americano, que foi diplomata, chegando a embaixador no ONU, governador de Atlanta, lutador pelos direitos civis e apoiante de Martin Luther King. Quando estava na ONU deu uma entrevista a um jornal francês, Le Matin, durante a qual, tendo vindo à baila a URSS e o tratamento dado aos dissidentes, referiu que nos EUA havia centenas de pessoas detidas que poderiam ser consideradas como presos políticos. Referir-se-ia aos lutadores pelos direitos civis e a pessoas que se opunham à guerra. Houve grande celeuma, tendo um eleito republicano à Câmara dos Representantes proposto que Young fosse demitido do lugar de embaixador. Não conseguiu, mas no ano seguinte Young foi demitido do lugar por ter contactado a Organização da Libertação da Palestina contra a vontade de Israel.


Diário de Bordo recordou-se deste caso, a propósito do caso de George Wright, que hoje se chama José Luís Jorge Santos, e é cidadão português. A versão que Wright, que terá estado ligado ao movimento dos Panteras Negras, apresenta sobre as acusações que levaram à sua condenação é diversa da das autoridades americanas. A ter razão não será  o primeiro caso, longe disso, em que pessoas envolvidas em contestação política nos EUA, são depois incriminadas como delinquentes comuns. Seria bom haver quem julgue estes casos com imparcialidade. E que os EUA aceitassem aderir ao TPI – Tribunal Penal Internacional.

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