Sobre a nova geografia da União Europeia, de Riga a Nicósia, olhares sobre a sua geografia política e económica que na zona euro está a ser instalada.

Por Júlio Marques Mota

 

(continuação)

 

2. As respostas que a União Europeia não deu, o que é que ela escondeu

 

A)    As questões sobre a Europa a que não se respondeu

 

Tyler Durden em 06/29/2012 14:54 -0400

 

A Cimeira Europeia para salvar o Euro (esta é talvez já  a XIXª  cimeira), foi quase uma cimeira  notável, apostada em fazer algumas coisa para tentar salvar o Euro. O sentimento para alguns observadores em forma de conclusão sobre esta cimeira foi um sentimento de nostalgia; a desilusão antecipada, a insistência dos dirigentes nacionais de que absolutamente nada iria ser sacrificado, as informações de fontes próximas e também de “fontes bem informadas” e de altas autoridades sob anonimato, os debates provocatórios da última noite e, em seguida, o processo altamente pessoal de firmar um acordo entre os chefes de governo. 

 

Paul Donavan, UBS: [uma excepção a] uma moeda, a um sistema bancário, a uma política fiscal?

 

Entrámos para esta cimeira com uma União Monetária na Europa, que claramente não funciona. Saímos desta cimeira com uma União Monetária que ainda não funciona. 

 

Como sempre, com uma cimeira europeia há sempre questões a que se não deu resposta. Demonstrações grandiosas são aquilo em que os chefes de governo se especializaram – os detalhes são deixados para mais tarde  (é uma das razões pelas quais Maastricht produziu uma União Monetária defeituosa desde o seu  início. Uma vez que havia sido acordado “criar uma moeda única”, a partir daí os políticos deixaram de estar interessados nela). A declaração da própria cimeira foi totalmente desajustada, inadequada mesmo e a maioria dos detalhes tem sido concretizados nas declarações da Conferência de imprensa. Sem dúvida, mais detalhes virão a lume quando os chefes de governo regressarem aos seus países e em breve os media locais informarão como eles “venceram” em Bruxelas. Assim, haverá então outras perguntas a que será necessário responder?


A supervisão bancária terá poderes reais? Em particular a regulação bancária  terá poderes e será ela capaz de encerrar  bancos, mesmo que  estes  bancos sejam  campeões nacionais? Ela deveria ter esse poder, caso contrário as ameaças que possam  fazer   serão em grande  parte ineficazes . Em última análise, é necessário que se possa ver  o regulador a ser capaz de forçar a que se efectuem  mudanças nos bancos, mesmo que estes não peçam injecções de  capital (como acontece noutras Uniões Monetárias a funcionar ). Estarão as nações da zona  Euro preparadas para entregarem  a sua soberania, na medida em que ” são os  estrangeiros que fecham os  nossos bancos /executam as nossas hipotecas”?


A Chanceler Angela Merkel declarou que deve haver condições para a recapitalização directa dos bancos. Isto não deve provocar, talvez, muita surpresa nos mercados financeiros, saber-se que a Chanceler Merkel está muito interessada em estabelecer condições. Mas como serão estas  impostas? Tem de haver um conjunto de “condições permanentes, gerais”, ao invés de condições estabelecidas caso a caso, se se quer que o mecanismo funcione correctamente – por necessidade de um processo apolítico de injecção de capital, descrito acima.


Quanto aos países que já têm  bancos em situação de resgate com apoio da zona Euro? Supondo que a recapitalização directa não ocorrerá antes do final deste ano, essa lista é  constituída pela Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Chipre (países que têm ou irão ter o apoio do FEEF  para socorrer os  seus sistemas bancários). Outros países têm resgatado os seus bancos com fundos nacionais. Onde é que o processo irá parar? Isto é absolutamente fundamental para resolver a questão, e claro, tem um enorme impacto potencial sobre os mercados de dívida soberanos (devido aos impactos sobre as considerações individuais  da dívida pública relativamente ao PIB).

 

Quem garante os depósitos? Isto não foi clarificado. Se os depósitos estão garantidos nacionalmente tem-se o regulador bancário que ele é supranacional, o que levanta a questão porque é que há-de ser um estado nacional a pagar, a arcar com o custo (seguro de depósito), de uma decisão (aplicada a um banco) que é tomada a um nível supranacional. No entanto, há obviamente o fardo do custo para garantir os depósitos nos bancos a um nível pan-europeu – e a pergunta “porque é que o dinheiro dos nossos impostos está a ser utilizado para garantir os depositantes nos bancos estrangeiros laxistas?” irá muito seguramente aparecer.


Para injecções de liquidez os anúncios estão cheios de boas intenções, mas elas na verdade nada  mudam  quanto à solvência dos bancos de  hoje. O que muda é quem é que paga a factura para a (eventual) solvência dos bancos e, assim, a ligação entre os bancos e o soberano nacional. Embora tenha havido alguma reacção positiva quanto aos CDS sobre a banca até agora, não é porém claro se isto de repente isto fará os mercados monetários  mais funcionais.


Uma boa dose de cinismo dos economistas deve provavelmente ser melhor considerada a este nível. A normalização do mercado monetário deve muito provavelmente exigir muito mais do que uma tomada de posição produzida no âmbito de uma Cimeira europeia para a resolver. Assim, a eficácia económica das injecções de liquidez deve provavelmente continuar a ser muito baixa (ou até ser mesmo nula).

 

(continua)

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