Diário de bordo de 24 de Julho de 2012

 

24 de Julho não é apenas nome de avenida – neste dia, no ano de 1823, as tropas do duque da Terceira derrotaram na véspera os miguelistas comandadas pelo general Teles Jordão na Cova da Piedade e, atravessando o rio, entraram na capital. A vitória liberal estaria ainda dependente de mais algumas batalhas. Os diferendos resolviam-se assim, por intervenção militar. Hoje resolvem-se de maneira menos violenta. A comunicação social e a televisão em geral assumem um papel central na construção da opinião  e na consequente orientação do voto. Um exemplo – acabam de ser tornadas públicas as classificações atribuídas aos diferentes políticos. Foi proposto a um politólogo, um jornalista e dois professores que avaliassem um ano de liderança de Antonio Jose Seguro. Na avaliação, mais do que discutível, são atribuídos a Mário Soares 17 pontos, a Sócrates 14 e a António José Seguro, 12. Classificações que não servem para nada, mas que reflectem a actual maneira de conduzir a luta política.

 

No dia em que António José Seguro completa um ano à frente do Partido Socialista, paira a frase dita ontem num jantar por Pedro Passos Coelho de que a Oposição está sem alternativas. O que é verdade. O Partido Socialista não é uma alternativa, mas sim a garantia de que, vencendo as próximas eleições, tudo continuará na mesma. PS e PSD são, na prática, um só partido. O partido serventuário dos poderes económicos internacionais.  A esquerda parlamentar, dividida como está, não tem capacidade para compreender até que ponto é ineficaz. O PCP iludido com a força da CGTP, o Bloco mergulhado na defesa das suas causas. No meio da sua meia-dúzia de árvores, julga-se na floresta. Já aqui citámos O Pós-socialismo, de Alain Touraine, que começa com a frase «O socialismo está morto». Touraine interroga-se sobre os motivos que levam a esquerda que, sempre usou o conceito do devir histórico, da mutabilidade das ideias, a supor que o modelo político da esquerda não está sujeito a essa permanente mutação.

 

Carlos Brito, dez anos depois de ter sido irradiado do PCP, vem afirmar que o movimento dos renovadores “tinha razão” ao pedir mudanças ideológicas e políticas, perante o que considera ser a actual “estagnação do partido. No PS nem sequer se pode falar de estagnação – pois a cada novo secretário-geral se acentua o desvio de direita. Numa época em que, cada vez mais, a luta política se aproxima do reality show televisivo, não parecendo fora de questão que  em próximas campanhas os líderes políiticos se digladiem em programas tipo o «elo mais fraco», a esquerda permanece agarrada a modelos que têm a sua origem no século XIX.

 

Século em que tudo era diferente – na batalha da Cova da Piedade, travada em 23 de Julho de 1833, o comandante miguelista, brigadeiro Teles Jordão, foi executado por um capitão liberal a golpes de sabre e enterrado com um braço de fora. Escapa-nos o simbolismo da bizarra cerimónia fúnebre. Talvez a tendência para o espectáculo que, sublimada por quase 180 anos de «civilização», degenerou no lixo televisivo que os canais generalistas nos despejam em cima.    

 

 

 

 

 

 

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