GIRO DO HORIZONTE – SÍRIA – por Pedro de Pezarat Correia

 

      

Não tenho abordado o problema da Síria apesar de este vir assumindo, cada dia que passa, maior gravidade, atirando para o rol das coisas inúteis as tentativas de Kofi Annan para encontrar soluções para o conflito, em nome do secretário-geral da ONU. Até porque José Goulão o vem fazendo, com a atenção, o conhecimento e a competência com que sempre trata as questões do Médio Oriente.

           

Se é verdade que o drama sírio vem na sequência das roturas que têm abalado o mundo árabe desde a primavera de 2011, também é certo que há peculiaridades que fazem dele um caso com contornos próprios. Já aqui citei um livro de Mathieu Guidère, Le choc des révolutions arabes, que a Almedina publicará muito brevemente em edição portuguesa, no qual o autor faz uma leitura muito bem fundamentada das movimentações na generalidade dos 22 países da Liga Árabe, salientando que há três factores que, com maior ou menor incidência em cada um deles, são chaves para a compreensão do que aí se passa. Chama-lhes precisamente as chaves, chave tribal, chave militar, chave religiosa e são transversais à cultura árabe.

           

Há, porém, um país que merece a Guidère uma leitura atípica, uma vez que nenhuma destas chaves se sobrepõe, com nitidez, às restantes, e há outros factores que até se apresentam com maior relevância. É, precisamente, a Síria. Há um mosaico complexo de minorias étnicas e confessionais, mas não de raiz tribal e as forças armadas têm pouca implantação popular porque são de modelo profissional.

           

 

A Síria está em plena guerra civil generalizada, produto de roturas políticas e sociais internas, mas os factores que a alimentam e agravam diariamente são geoestratégicos, com especial relevo para as interferências externas. A Síria é palco de um jogo que faz lembrar a guerra fria, disputas cruzadas das grandes potências que ali querem manter zonas de influência e apoiam guerras por delegação através de actores internos e de vizinhos próximos. No terreno combatem forças governamentais, institucionais e irregulares, contra forças rebeldes, coligação complexa de várias facções políticas e religiosas, onde é cada vez mais visível a presença da jihad da Al Qaeda e de mercenários recrutados e infiltrados pela Arábia Saudita e pelas petromonarquias do Golfo seus satélites. O Governo recebe apoio logístico da Rússia e do Irão e conta com a simpatia da China, enquanto a coligação rebelde, além da Arábia Saudita, conta com o apoio dos EUA, da França e da Turquia.

 

Neste complexo puzle há dados obscuros e dúbios, como a disputa xiita/sunita, os curdos e as suas solidariedades transfronteiriças, Estados em situações particularmente ingratas como o Líbano e o Iraque.

           

 

Israel hesita, aliás como em relação à generalidade das revoluções árabes. Enquanto com o governo sírio actual está numa situação de tréguas de uma guerra não declarada mas que controla, um poder islâmico que possa substituir Assad é muito menos previsível. Mas não pode deixar de manter, em relação à evolução na Síria uma expectativa favorável. E aqui, penso, reside o aspecto fundamental.

           

 

Lembremo-nos que, quando da invasão do Iraque em2003, aadministração Bush anunciou que seria o primeiro passo para mudar o mosaico político no Médio Oriente. Seguir-se-ia a Síria e o Irão e este programa só não se cumpriu porque as coisas correram demasiado mal no Iraque. Era (é) a estratégia dos EUA e do seu parceiro regional, Israel. A queda da Síria teria repercussões quase imediatas no Líbano e na Faixa de Gaza, onde o Hezbollah e o Hamas ficariam mais fragilizados. E deixaria o Irão mais exposto. Israel estaria a conseguir os seus objectivos sem ter de atacar o Irão. Mas as coisas podem não ser assim tão fáceis se a resistência se mantiver na Síria e o Hazbollah a activar no Líbano. Como o Iraque demonstrou há sempre muitas surpresas no Médio Oriente e não é saudável acender um fósforo num paiol de pólvora.

           

 

Será que Obama apenas está, no Médio Oriente, a prosseguir a estratégia de desastre desencadeada por George Bush? Como sabemos, nos EUA, a politica externa e a estratégia militar tendem a ser constantes independentemente dos partidos no poder, porque são pressionadas por dois lobbies decisivos, o judaico e o complexo industrial-militar. Só que, neste ano, ainda há que introduzir mais uma pedra no puzle, as eleições presidenciais. As declarações do candidato Mitt Romney, de que a imprensa de hoje se faz eco, de que apoiará um ataque de Israel ao Irão, é a prova de que percebeu que a estratégia de Obama não é tão directa porque passa pela Síria.

           

 

Nestes casos não sou de fazer previsões ou antecipações. Mas é importante dispor de todos os factores de análise para se procurar compreender uma situação tão complexa e evitar ir atrás de mera propaganda. E é esta que tem predominado na generalidade da informação que é debitada sobre a Síria.

 

30 de Julho 2012

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