DIÁRIO DE BORDO, 31 de Julho de 2012

 

Um dos problemas mais complexos de uma sociedade, de qualquer sociedade, é a salvaguarda dos direitos das suas minorias, sociais, étnicas ou de qualquer outro tipo. Na verdade, assegurar os direitos seja das mulheres, dos indivíduos ligados às diferentes etnias, dos ligados aos vários grupos religiosos, às diferentes opções sexuais, etc., implica um esforço permanente de equacionar diferentes possibilidades, e de prevenção de desequilíbrios. E de confrontar maneiras diferentes de encarar o mundo e a vida, que eventualmente se poderão chocar.


Sem dúvida que o progresso da civilização permitiu que muitos preconceitos fossem ultrapassados, ou pelo menos enfrentados. Mas é difícil determinar quando é que se pode considerar que foram realmente erradicados. Quem pode afirmar com segurança que os preconceitos contra as mulheres foram definitivamente ultrapassados? Ou contra os negros? Contra os judeus?


Há dias, em Crystal Springs, no estado de Mississipi, ocorreu o incidente seguinte. Na Primeira Igreja Batista o pastor informou um casal de que não podia casá-los ali, na sua igreja. Motivo: serem de raça negra. Existindo a igreja desde 1883, nunca ali casou um casal de outra raça que não a branca, para usar uma linguagem simplificada. O casamento acabou por ser celebrado numa igreja próxima.


Muita gente dirá que, no Mississipi, casos destes não serão inéditos. Diário de Bordo reconhece que é com certeza verdade, mas que não deixa de ser indigno por isso. O pastor terá cedido à pressão de membros influentes da comunidade, com peso na paróquia (será este o termo correcto?), e assim, mais uma vez, uma igreja/organização religiosa cedeu perante os poderes dominantes e reaccionários que frequentam a sua missa. Sem querer menosprezar o problema do papel pouco positivo que as igrejas/organizações religiosas, na sua maioria, têm tido ao longo da história neste tipo de questões, há que constatar em primeiro lugar a subsistência do racismo na sociedade americana. Dirão que em Nova Iorque ou Washington talvez não se verificasse um acontecimento destes, mas isso não impede a conclusão que se trata de um caso indigno, ainda por cima passado num país que se apresenta como campeão da democracia, da liberdade e dos direitos humanos.


Não se trata de andar a tentar pôr os americanos no pelourinho.  E há que reconhecer que toda a indignação à volta do caso demonstra que grande número de pessoas, a começar por pessoas do Mississipi, achou-o revoltante. Simplesmente tem de se pôr a questão de como foi possível acontecer. E claro que o que vale para o Mississipi vale para o resto dos EUA ou do mundo. Na igreja ou fora dela.

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