Diário de bordo de 1 de Agosto de 2012

 

 

 

Temos aqui verberado a “alternância democrática”. Faz lembrar o rotativismo que, particularmente entre 1876 e 1906, dividiu o poder executivo entre os partidos Regenerador e Progressista, terminando com a Ditadura de João Franco, por sua vez interrompida pelo Regicídio. A alternância impõe-nos a seguir a um governo PS que governa mal, um governo PSD que governa pior, logo seguido por um governo PS que consegue governar ainda pior…  É a descida aos infernos por uma escada que parece não ter fim. Mas terá e pode também não ser feliz. Com razão, dizemos que «são todos o mesmo». Mas neoliberais, social democratas, o que sejam estes senhores, há-os diferentes. Seguindo-se a um desastroso Sarkozy, François Hollande não prometia grande coisa, mas em menos de dois meses de governo…

 

Suprimiu 100% dos carros oficiais e mandou que fossem leiloados; os rendimentos destinam-se ao Fundo da Previdência a ser distribuído pelas regiões com maior número de centros urbanos. Enviou um comunicado aos órgãos que dependem do governo, abolindo o carro de empresa, com frases dirigidas aos altos funcionários –  “se um executivo que ganha € 650.000/ano, não se pode dar ao luxo de comprar um bom carro”(…)”é demasiado ambicioso, estúpido, ou desonesto. A nação não precisa de nenhuma dessas três figuras ” .

 

Aboliu o conceito de paraíso fiscal e emitiu um decreto que cria uma taxa de aumento de 75% em impostos para as famílias, que aufiram mais de 5 milhões de euros/ano. Com essa verba, sem afectar o orçamento, contratou 59.870 diplomados como professores na educação pública – 6.900 a partir de 1 de Julho de 2012, e 12.500 em 1 de Setembro. Cortou à Igreja subsídios no valor de 2,3 milhões de euros que financiavam escolas privadas, e com esse dinheiro criou um plano para a construção de 4.500 creches e 3.700 escolas primárias.

 

Estabeleceu um bónus-cultura, que isenta de impostos quem criar uma cooperativa e abrir uma livraria contratando, pelo menos, dois licenciados desempregados a fim de poupar na despesa pública e contribuir para a redução da taxa de desemprego. Aboliu os subsídios para revistas, fundações e editoras, substituindo-os pelo financiamento pontual de actividades culturais.

 

Deu aos bancos a possibilidade de ter benefícios fiscais se fizerem empréstimos bonificados a empresas francesas que produzam bens de primeira necessidade.

 

Reduziu em 25% o salário dos funcionários públicos, 32% aos deputados e 40% aos funcionários públicos que ganhem mais de € 800.000 por ano. Com os cerca de 4 milhões arrecadados, criou um fundo que protege as  mães solteiras em dificuldades financeiras, garantindo um salário mensal por um período de cinco anos, até que a criança entre na escola e de três anos se a criança for mais velha..

 

Os reflexos destas medidas são positivas – assim o dizem os indicadores económicos. Claro que Hollande  não deve ter discípulos de Milton Friedman a assessorá-lo. E todas estas medidas exigiram inteligência, honestidade e sensibilidade para os problemas que afectam os cidadãos. Foi muito mais rápido e mais fácil cortar uma parte importante do salário anual de funcionários do Estado e dos pensionistas. Esta gente não tem tempo para obter diplomas no tempo normal, nem paciência para pensar em medidas honestas como as que François Hollande está a tomar.  Marcelo Rebelo de Sousa (ironicamente?) diz que eles vão salvar o país.

 

Qual país?

 

 

Leave a Reply