“A Vida dos Sons”: deseja-se menos cinzenta e mais multicolor (V) – 6 – por Álvaro José ferreira

(Conclusão)

 

15. Edição do álbum “Fala do Homem Nascido”, com poemas de António Gedeão musicados por José Niza e cantados por Carlos Mendes, Duarte Mendes, Samuel e Tonicha; tendo como ponto de partida a poesia de António Gedeão, autor que Manuel Freire popularizara com a balada “Pedra Filosofal”, estreada no Outono de 1969, no programa “Zip-Zip”, José Niza musicou 11 textos que são cantados – ora colectivamente, ora em dueto, ora a solo –, por Carlos Mendes, Duarte Mendes, Samuel e Tonicha. São eles: “Estrela da Manhã” (por todos), “Fala do Homem Nascido” (por Samuel) [ao vivo em Montemor-o-Novo, em 2007, “Desencontro” (por Samuel e Tonicha), “Tempo de Poesia” (por Duarte Mendes), “Vidro Côncavo” (por todos), “Poema da Malta das Naus” (por Samuel), “Lágrima de Preta” (por Duarte Mendes) [a partir de 2′:00”, “Poema do Fecho Éclair” (por Carlos Mendes) , “Calçada de Carriche” (por Carlos Mendes) , “Poema da Auto-Estrada” (por Tonicha)  e “Poema da Pedra Lioz” (por Samuel); os arranjos e direcção de orquestra são da responsabilidade do então jovem maestro José Calvário, que com «o seu bom gosto, inteligência e sensibilidade, deu um excelente tratamento instrumental e orquestral às canções», como o próprio José Niza reconheceu muitos anos depois (1998), aquando da reedição em CD; refira-se, a título de curiosidade, que dois dos temas do disco – “Fala do Homem Nascido” e “Lágrima de Preta” – não são propriamente inéditos na forma cantada com música de José Niza, pois Adriano Correia de Oliveira gravara-os dois anos antes, no álbum “Cantaremos”;

 

 

16. Edição do álbum “Palavras Ditas”, de Mário Viegas; a estreia discográfica do grande recitador (como ele próprio gostava de ser chamado) dera-se em 1969 com o EP “Mário Viegas Diz Poemas” (selo Orfeu); “Palavras Ditas” é o seu primeiro registo de longa duração e a plena afirmação da sua arte de dar voz, com notável eloquência, às palavras saídas do punho de autores portugueses e estrangeiros, e não só eruditos, como a seguir se verá; na maioria dos poemas, a voz de Mário Viegas surge enquadrada numa “encenação musical” especialmente composta para o efeito, o que representa um conceito inovador e pioneiro em Portugal; com produção, direcção musical e concepção sonoplástica de José Niza e captação de som de Moreno Pinto (nos Estúdios Polysom, em Campolide, Lisboa), são doze os espécimes deste “Palavras Ditas”: “Anedota” (popular), “Amátia” (Jorge de Sena), “Boletim Meteorológico” (retirado de um jornal), “Epígrafe” (José Carlos Ary dos Santos), “Mãezinha” (António Gedeão), “Hino à Minha Terra” (Amélia Vilar), “O Ladrão do Pão” (Alexandre O’Neill), “Palavras” (Gastão Cruz), “Uma Lisboa Remanchada” (Alexandre O’Neill), “Correio” (Manuel Alegre), “O Viajante Clandestino/X” (Daniel Filipe), “Sob o Trópico de Câncer” (Vinicius de Moraes); a execução instrumental foi assegurada pelos próprios compositores: José Calvário (piano e órgão), José Niza (viola acústica), João Ramos Jorge (Rão Kyao) (saxofone barítono) e Paulo Gil (percussão).

 

 

 

Todos (ou quase todos) estes itens podiam ser devidamente ilustrados, ora com registos do arquivo da RDP (entrevistas, adaptações de peças de teatro e de obras romanescas, recitações de poemas, etc.) ora, no caso de repertório musical, com gravações discográficas.

 

Não cabia tudo em 50 minutos? Problema nada difícil de resolver: em vez de uma única edição (lacunar, espartilhada e cinzenta), façam duas – mais completas, desafogadas e variegadas.

Renova-se o pedido: deseja-se que “A Vida dos Sons” seja menos cinzenta e mais multicolor.

 

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