a alta finança, os mesmos funcionários menores, os governos nacionais. Uma nova série.
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
2. Os demónios de Dimon,
Sylvain Cypel, Carta de Wall Street,
Acabarão por ser, finalmente, não dois, mas provavelmente 3 mil milhões – talvez até mesmo 4. As perdas de JP Morgan Chase em investimentos muito arriscados suscitam os comentários fortemente irónicos dos seus concorrentes, anteriormente invejosos do sucesso do seu Presidente, Jamie Dimon. E este, agora, visa sobretudo aparar os golpes. As investigações do FBI e do controlador dos mercados, a Securities & Exchange Commission (SEC), [Comissão de Valores Mobiliários] poderão levantar o véu destas operações do banco. Quando este recebeu o primeiro alerta, o que é Dimon fez? Enquanto esperamos por saber isso, interessemo-nos um pouco por este homem e pelas influências que moldaram a sua visão do mundo dos negócios e o seu comportamento. Talvez haja por aqui matéria para perceber as razões menos conjunturais da sua derrota actual?
Impossível, para compreender Jamie Dimon, de não se referir àquele que foi o seu professor, o seu mentor e o seu protector durante quinze anos: Sanford (Sandy) Weill, a quem Jeff Madrick, na sua recente história moderna da economia dos EUA, dedica um capítulo sob o título “Rei do mundo”, tanto ele mudou de forma decisiva a finança americana e as suas regras do jogo. Estamos então nos faustosos anos de 1980, onde tudo se joga, desde a banca universal àos “junk bonds” os títulos podres. Saído da meca da gestão financeira (Harvard Business School), o jovem Dimon encontra-se ao serviço bastante próximo de Sandy Weil, uma espécie de ogre muito susceptível, colérico e intuitivo, que trata facilmente os seus subordinados de “idiotas” e de “filhos de puta” , mas que tem o faro das grandes jogadas, como nenhum outro. Ali permaneceu entre 1982 e 1997.
Depois de ter construído Travelers, o seu reino pessoal, à custa de fusões e aquisições, Weill tornou-se o eixo da criação, pelo mesmo método, do banco Citicorp (agora Citigroup), e depois tornou-se então o seu chefe emblemático.
Este vai inculcar no seu ambicioso aluno as suas duas convicções mais arreigadas. Em primeiro lugar, a ideia de que a dimensão faz a força e a força é, em última análise, o próprio direito, Weill nunca incarnará nem a inovação nem o empreendedorismo, mas o outro lado da Revolução Reagan: a criação de gigantes financeiros. Em seguida, entre os primeiros, Weill defendeu que com os amplos poderes da SEC e as agências de rating a auto-regulação do sistema financeiro era a melhor garantia contra riscos colectivos, os riscos sistémicos. A globalização torna as leis nacionais caducas, é pois necessário desregular maciçamente a finança. Sob a sua orientação Dimon esteve em todas as manobras de lobby no Congresso, especialmente no que diz respeito à abolição definitiva da Lei Glass-Steagall, esta lei que data do New Deal em que se proibia simultaneamente que um banco tivesse actividades de depósito e fosse também banco de investimento e que impedia também que estes especulassem com o seu capital próprio.
Com Sandy, finalmente, Jamie aprendeu o management na sua expressão mais dura. De fusão em aquisição, Weill tornou-se o apóstolo do aumento de dividendos através das economias de escala: reduções de pessoal, redução drástica nas despesas, renegociação à baixa da cobertura de direitos na saúde e das reformas dos seus funcionários… Frequentador habitual de restaurantes de luxo, consumidor de bons vinhos e de carros de luxo, ele reduzia o número de veículos de serviço aos seus subordinados, quando adquiria uma empresa. Quanto ao modo de gestão humana, Weill estava rodeado por um número muito pequeno de fiéis e a sua primeira regra era muito simples: apenas contam os resultados. A segunda era menos simples: alongar ao máximo no tempo a escala dos bónus dos altos quadros, dos executivos, aumentando e em muito os que considerava mais produtivos e reduzia os que eram menos.
É neste ambiente que Dimon afiou os seus dentes antes de tomar o seu próprio rumo. Depois do colapso financeiro no Outono de 2008, tornou-se o novo “rei do mundo “: o seu banco era o único que sofreu grandes reveses. Será de nos admirarmos se, por seu lado, ele liderou a acusação contra as propostas de regulamentação das finanças que estava a ser feita pela Administração Obama, seguindo três linhas de base: não toquem na dimensão dos estabelecimentos bancários, nada, mas nada mesmo da ” regra Volcker “, uma espécie de um nova Glass-Steagall Act, e, por fim mas não menos importante, não toquem nos grandes bónus. No entanto, antítese de Dick Fuld, o último chefe “louco pelo risco ” que presidiu Lehman Brothers até este se afundar, Jamie é do género cauteloso – como o foi Sandy Weill. Mas a corrida para o gigantismo levou-o a dar mais espaço ao risco. Quando, em 2008, a grande caixa de crédito imobiliário Washington Mutual (WaMu) se afundou, ele não pôde resistir ao isco. A sua aquisição trouxe ao banco um crescimento substancial, mas também uma quantidade de títulos de risco, de repente, multiplicado por qualquer coisa como 4 vezes.
Na sua biografia de Jamie Dimon, em tom laudatório, Duff McDonald escreveu: “Os defensores dos megabancos, Dimon incluído, apoiam uma visão semelhante à dos defensores de armas de fogo: as armas não matam as pessoas, argumentam eles, são as pessoas que matam pessoas. Por outras palavras: o modelo da mega-banco não esta viciado, o que está viciado é o modo como alguns os gerem, isso sim “…
Jamie Dimon pretendia gerir sem risco uma divisão de investimentos de risco, cujo volume de negócios tinha quadruplicado. Mas, como noutras histórias e lendas da banca moderna, o risco suposto estar “controlado”, tornou-se muito grande, escapa cada vez aos seus controladores. Para que nos lembremos, a mesma equipa que está agora a levar JPMorgan a perder 3 ou 4 mil milhões tinha ganho 5 mil milhões em 2010, ou seja, só este departamento gerou um quarto dos seus lucros anuais …
Sylvain Cypel, Lettre de Wall Street, Les démons de Dimon, Le Monde, 22 de Maio de 2012.
Referências:
cypel@lemonde.fr
Age of Greed (“Uma era de ganância”), Jeff Madrick, ed. Knopf, 2011; Last Man Standing (“A Última pé esquerdo”), Duff McDonald, ed. Simon & Schuster, 2009.
