CARTA DE VENEZA – 20 – “Glorença, a menor cidade da Itália” – por Sílvio Castro

 Fugindo do calor úmido desta Veneza do crítico mês de julho de 2012, verdadeiramente mais que crítico, decidimos, minha mulher e eu, tomar um trem a procura do refrigério seguro das montanhas alpinas italianas. A zona tirolesa por nós frequentada há mais de quarenta anos do Alto Adige foi ainda agora aquela determinada. Porém, não mais a Vale Pusteria, na predileta paisagem de Sexto, mas desta vez uma cidadezinha mais baixa, capaz de harmonizar-se com a minha não sempre imutável pressão cardíaca. Escolhemos então a para nós desconhecida Glorenza, na Vale Venosta tirolesa, sempre decantada como uma das jóias dos Alpes italianos. Os seus acolhedores 900 metros de altitude poderiam substituir condignamente os 1.300 de Sesto –

“O entardecer diante dos montes

de Sesto

me leva encontro a uma

sensação de imobilidade

benfazeja

como o olhar diante das coisas

sabidas,

principalmente

dos objetos conhecidos

desde sempre

e de improviso me vejo em perigo,

mas recordo que a presença

conturbadora da mulher amada

afinal é certeza de imobilidade.“

(Sílvio Castro, “O entardecer em Sesto”, in

Gira Mu(o)ndo, RJ,2003)

Então partimos, deixando Veneza por dezesseis dias, mas o fizemos tomando um trem especial, o rápido da ferrovia alemã que une Mônaco da Baviera a Veneza, sem escalas intermediárias e mudanças várias, coisa que não mais acontece com os trens da ferrovia italiana naquele mesmo percurso. Assim, com o rápido alemão, fizemos a viagem de Veneza a Bolzano em três horas, enquanto que com o mais promissor rápido italiano, dividido em duas frações, com mudança em Verona, onde teríamos de ficar por terra, inermes e já destruídos pelas sempre pesadas malas, por uma ou duas horas, levaríamos o dobro.

Glorença se encontra na província de Bolzano, na igualmente autônoma região do Alto Ádige, distando 80 quilômetros da cidade principal. Dalí partimos, fazendo ainda uma viagem de uma hora em automóvel numa estrada provincial bem organizada, ainda que com grande trânsito de carros e motos.

Glorença é uma deliciosa surpresa. A sua mais distante notícia data da metade do século XII°. Originariamente estava ligada à Suiça de língua alemã, passando depois ao domínio dos Asburgos. Senhora de um passado de grande riqueza pela florescente agricultura, bem como pelas grandes reservas de sal que a levavam a manter intenso intercâmbio econômico com a Sereníssima República de Veneza. A cidade se viu sempre ameaçada pelas tentativas de invasão dos antigos senhores suiços, ataques esses que atingiram o máximo de intensidade no final do século XV. Em 1499 sofreu um grande ataque que lhe moveram os suiços. Glorença foi então quase que inteiramente destruída e sua população praticamente dizimada. Com isso, reconstruída a partir do início do século XVI, Glorença adquire a fisionomia tardo-medieval que conserva até hoje.

Depois de tantos ataques, Glorença se fecha por uma muralha monumental, com 3 portas e 7 torres, o que lhe permitiu de melhor resistir aos intrusos violentos.

 A cidade murada chegou a ser um caso europeu, pois a partir dela Maximiliano, imperador ausbúrgico, procurará impedir que os confederados se aproximassem da França que se servia de mercenários suiços. Desta forma, o Imperador podia proteger indiretamente o seu aliado Ludovico, o Moro, duque de Milão.

 Situada num ponto privilegiado da Vale Venosta, Glorença – a menor cidade da Itália atual – com os seus poucos mais de mil habitantes é meta de grande movimento turístico internacional. Nela tudo é minúsculo. De uma parte estão principalmente as casas antigas dos habitantes ligados à agricultura; da outra, as construções mais modernas e o centro. A pracinha da cidade, fechada ao trânsito de automóveis por dois grandes vasos de flores construídos em madeira, com a sua fonte de água proveniente das montanhas vizinhas, nas manhãs frescas vê-se muito ocupada por aqueles que com os seus Ipad e computadores portáteis se servem do Wi-Fi livre no espaço florido.

 Glorença se encontra entre aquelas que podem ser ditas  suas duas cidades  satélites, ambas dela distantes 2 quilômetros: Males, à esquerda, alta 1.100 metros; Esluderno, à direita, a 800 metros. Em Males se encontra a única farmácia distrital que cobre todos os três centros, ainda que em Esluderno se ache uma outra pequena. Pelas duas cidades satélites passa a ferrovia local que liga a Vale ao grande centro altotesino de Merano. Para toda a Vale Venosta o único hospital disponível encontra-se em Silandro, pequeno mas muito vivo centro urbano, porém mais próximo de Merano que de Glorença.

 Por Glorença, ainda muito pequeno, passa o rio Ádige que mais adiante, em Verona, faz-se ver como um do principais rios da Itália. Daqui, de Glorença, caminho 4 quilômetros, até Esluderno, entre o verde dos campos e as águas rumorejantes do ainda pequeno Ádige.

 Para quem está na Vale Venosta, muiro próxima se encontra a Vale Senalis, confinante com o Őrtztaler Alpen, fronteira entre Itália e Áustria. Entre os Alpes Venostes e aquele austríaco, no dia 19 de abril de 1991, uma quinta-feira, às 13,30, foi feita a mais importante descoberta arqueológica do século XX: a múmia de “O homem vindo do gelo”, dito com mais humanidade com o apelido de Őtzer. A ele dedicaremos inteiramente a nossa Carta de Veneza, 21.

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