JORGE AMADO E ALVES REDOL – por António Redol

Jorge Amado e Alves Redol conheceram-se em Paris em 1948, segundo o próprio Jorge Amado relatou numa entrevista .

Na mesma altura e na mesma cidade, o escritor brasileiro conheceu pessoalmente Ferreira de Castro, o primeiro escritor português com quem manteve amizade. A sua relação já vinha dos anos 30, depois de Ferreira de Castro ter escrito um artigo elogioso sobre Cacau, acabado de sair (1933). Jorge Amado enviou livros seus a Ferreira de Castro com dedicatórias amigas a partir dessa data e trocaram ampla correspondência, como se pode ver na exposição evocativa do Centenário de Jorge Amado, que o Museu Ferreira de Castro, em Sintra, tem patente ao público e que reporta a relação dos dois escritores. Onde também se pode ver um filme da entrevista que Jorge Amado concedeu à RTP.

Portanto, é provável que tenha sido Ferreira de Castro quem apresentou Alves Redol a Jorge Amado. Aliás, Redol e Amado seguiram dali para Wroclaw para o Congresso Mundial dos Intelectuais para a Paz, o qual se realizou naquela cidade polaca de 25 a 28 de Agosto de 1948 e que reuniu cerca de três centenas de escritores, artistas plásticos, gente do cinema e do teatro, arquitectos, cientistas, dos mais prestigiados da época. Portugal esteve representado por Alves Redol, que falou em nome da delegação,

Fernando Lopes Graça, João dos Santos, tendo estado presente, também, Manuel Valadares, matemático, que já estava exilado em França. Do Comité Organizador e dos convidados faziam parte, do lado francês, Picasso, Léger, Le Corbusier, Claude Autant Lara, Jean-Louis Barrault, Roger Vailland, Paul Eluard, Vercors, Julien Benda, Jacques Duhamel, Henri Lefebvre, Frederic e Irene Joliot-Curie, Henri Wallon, Léopold Senghor, Aimé Cesaire, etc.. Da delegação italiana faziam parte Elio Vittorini, Cesare Pavese, Giacomo De Benedetti, Renato Guttuso, Luchino Visconti, Giuseppe De Santis, Cesare Zavattini, etc. A delegação brasileira, além de Jorge Amado, era constituída por Portinari, Oscar Niemeyer, etc. E a soviética por Cholokov, Fadeiev, Erehnburg, Pudovkine, etc.. Na delegação inglesa esteve presente Graham Greene e o Deão de Cantuária. Várias outras delegações estiveram em Wroclaw, nomeadamente dos EUA, Bélgica, Suiça Chile, etc..

Jorge Amado e Alves Redol já se deviam corresponder pelo menos desde 1940, quando o primeiro escreveu um pequeno texto sobre Gaibéus, publicado em Vamos Lêr, revista editada no Rio de Janeiro.

Esta carta foi emitida de Dobris, na antiga Checoslováquia, onde Jorge Amado se encontrava então, numa antiga construção transformada em residência de escritores.

Nela se refere a morte de Soeiro Pereira Gomes, que Redol sentiu muito profundamente, devido à sua grande amizade e contacto constante, antes de Soeiro partir para a clandestinidade em Maio de 1944. Recorde-se que a prisão de Redol, em 12 de Maio desse ano, se deveu a essa amizade, pois todos os interrogatórios que então sofreu na PVDE durante meses se destinaram a saber o paradeiro do amigo e compadre.

Nesta carta pode avaliar-se do interesse da obra de Redol por parte de Jorge Amado, que deligenciou junto de várias editoras de Leste para a tradução das obras do escritor português. Esta solidariedade entre escritores não a mostrou, também, Ferreira de Castro em relação a possíveis traduções de romances de Redol no Leste? Solidariedade que também este tivera no financiamento com outros do primeiro livro de Manuel da Fonseca e do de José Cardoso Pires? E, mais tarde, no apadrinhamento do primeiro romance de Álvaro Guerra?

Note-se que Jorge Amado mostra interesse pelas publicações portuguesas, “E também bacalhau …”, cujo envio se terá verificado, pois em carta de 31 de Janeiro de 1951 agradece a Redol a encomenda recebida com o apetitoso peixe.

Repare-se, também, como o escritor brasileiro fala em Pereira ao referir-se a Soeiro Pereira Gomes e a Ferreira ao referir-se a Ferreira de Castro. E como ao citar a edição russa de Fanga escreve “a pusquiana”. Sabendo que a Polícia Política portuguesa abria as cartas dirigidas a certas pessoas, evitava ser claro.

Jorge Amado refere os contactos realizados com “ teu editor”, devendo tratar-se de Francisco Lyon de Castro, em cujas Publicações Europa-América Redol editara em início de 1958 o romance A Barca dos Sete Lemes. Sobre este livro Amado emite opinião muito favorável, tendo-se apercebido que correspondia a uma nova fase da obra de Redol, depois de nada escrever entre 1954 e 1957, pois decidira deixar a escrita. Neste período, Redol apenas publicou Olhos de Água em final de 1954, mas já concluido anteriormente, romance que é, hoje, considerado uma primeira manifestação dessa nova fase,  A Vida Mágica da Sementinha, texto para infância publicado em 1956, cuja escrita se iniciara por finais dos anos 40 e o conto Algumas Maneiras de Um Homem Sem Família Passar a Noite de Natal, publicado na revista Eva no final de 1957.

Na carta, o autor de Gabriela, Cravo e Canela, refere o prazer que terá em que um livro seu figure na mesma colecção em que está publicado um livro de Redol, devendo tratar-se da Colecção Século XX daquela editora, em que A Barca dos Sete Lemes foi incluído. Recorde-se que já havia livros de Amado publicados pela Livros do Brasil.

Nessa altura Redol ainda não decidira entregar o exclusivo das suas edições a Publicações Europa-América, como o fará em Janeiro de 1965, juntamente com Fernando Namora. Pelo contrário, em Outubro de 1959 assinou um contrato de exclusivo com a Portugália Editora. Mais tarde, também a Europa –América será a editora exclusiva de Jorge Amado em Portugal.

Nas últimas linhas da missiva Jorge Amado refere-se ao interesse que tem em falar com Redol, cuja presença no Chile em 1953 e no Brasil em 1954 em congressos de escritores tentara, mas que a PIDE impedira, negando autorização a Alves Redol para viajar.

Alves Redol e Jorge Amado continuaram a corresponder-se e a encontrar-se em Lisboa quando este último aqui vinha.

Redol esteve no jantar no Aeroporto de Lisboa em 1953 estimulado por Ferreira de Castro, quando Jorge Amado esteve de passagem pela cidade e a PIDE não o deixou sair daquele local e visitar Lisboa. Nesse jantar, além de Jorge Amado, estiveram Ferreira de Castro, Maria Lamas, Alves Redol, Fernando Piteira Santos, Francisco Lyon de Castro, Roberto Nobre, Mário Dionísio, João José Cochofel, Cardoso Pires e Carlos de Oliveira.

Alves Redol esteve, também, com Jorge Amado na recepção que foi oferecida a este último em Publicações Europa-América em meados dos anos 60, havendo fotografias em que se reconhecem, além dos dois, Armando Bacelar, Urbano Tavres Rodrigues, Álvaro Salema, Alexandre Cabral, Manuel Alpedrinha, Orlando da Costa, Fernando Namora, Mário Dionísio.

Recorde-se que em 1957, Jorge Amado teve de pernoitar em Lisboa por causa de uma complicação de voos para o Brasil. Decidindo aproveitar para dar uma volta pela cidade, que não conhecia, foi sempre seguido por um agente da polícia política, que lá estava de manhã no átrio do hotel.

Vila Franca de Xira, 30 de Julho de 1012

António Mota Redol

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: