JORGE AMADO, “modesto escritor do povo da Bahia, da sua vida popular e pobre” – por Sandra Bagno

 Amigos há muito tempo, o casal Amado e Sílvio Castro, que desde 1964 lecionava Língua e literatura portuguesa e brasileira em Padua, já  tinham passeado juntos muitas vezes pelas calle venezianas e pelas vie de Pádua, antes que Jorge fosse homenajado pela Università di Padova com uma Laurea Honoris causa. Foi assim que eu pude encontrar Jorge e Zelia em diferentes momentos, participar das muitas entrevistas e assistir às grandes homenagens que, cada vez mais, salões repletos, nem somente de estudantes, foram tributando a Jorge Amado.

Jorge, Zélia e Sílvio, do dia 11 de maio de 1995, tirada no jardim do Palazzo Maldura, sede da Faculdade de Letras e Filosofia da Universidade de Pádua.

 Uma grande  humanidade, incansávelmente generosa, era o que sempre Jorge transmitia. Das entrevistas saia um modelo intelectual cuja força era uma dignidade humana com que,  magneticamente, Jorge Amado era capaz de neutralizar  qualquer  forma de dogmatismo, de obscurantismo, de sempre possíveis novas  inquisições. Inclusive as de certas esquerdas das quais ele mesmo participara, e cuja sedução percebia-se nas perguntas de vários estudantes. Nem por isso Jorge Amada deixava de  valorizar as muitas esferas pessoais do homem, como as religiosas.

 Nesse  sentido, é de maior interesse a “carta” que Jorge Amado leu no dia 9 de maio de 1966 em Pádua.  De fato, um Jorge Amado que se declarou muitas vezes ateu, trouxe na dotta Pádua o retrato de um outro Santo Antônio. Um  Santo Antônio que, “Ao transportar-se para Portugal e para o Brasil, … não conservou a erudição acadêmica, fez-se popular e simples na devoção do povo”. Assim como sempre fora também na devoção da própria mãe de Jorge Amado, Dona Lalu, que, mesmo que“pouco chegada às práticas religiosas, nem mística, nem beata, bastante cética”,  “de Santo Antônio era íntima, de uma intimidade tão completa que o tratava por Tonho”.

 Transcrevemos na íntegra a “carta” – nada de lectio magistralis por parte do “modesto escritor do povo da Bahia”, como se define o autor – de Jorge Amado, Laurea honoris causa na Università degli Studi di Padova, no dia 9 de maio de 1996. Traduzida por nós para o italiano, a “carta” foi publicada pelo diário Il Mattino no dia 17 de agosto de 1996, com o título “Perché amo Padova…”

* * *

Diante da beleza e da grandeza de vossa Universidade de Pádua, repito que a vida tem sido generosa para comigo, me tem dado mais do que mereço e do que pedi. A tantos outros privilégios acrescenta o de trazer-me até esta vossa casa, magnífica.

Santo Antônio de Pádua encabeça a relação dos professores de vossa Universidade, que pelo saber e pelas virtudes mereceram a canonização e sao venerados por multidões em todo o mundo. Entre esses vários eméritos, Santo Antônio é o primeiro. Sua fulguração celeste é feita de sapiência, Santo Antônio foi um sábio e notável cidadão.

Não posso conter a emoção diante da cátedra de onde Galileu desvendou mistérios, ensinou verdades; e assombro-me ao penetrar no espaço inventado para uma perfeita aula de anatomia. Tanta cultura aprendida e ensinada determinam a imagem desse Santo Antônio da Universidade de Pádua.

 Aqui chego pela mão de Santo Antônio, do Santo Antônio de minha devoção familiar. Ao transportar-se para Portugal e para o Brasil, o santo não conservou a erudição acadêmica, fez-se popular e simples na devoção do povo. Foi, inclusive, capitão das tropas portuguesas, sob sua invocação os lusos derrotaram os holandeses nas batalhas de Itaparica. Vale acrescentar que o capitão Santo Antônio recebia mensalmente o soldo, o capelão da tropa afirmava-se seu procurador. Nem por popular deixou de ser poderoso e creio que se pode afirmar que nenhum outro, na corte celestial, é tão solicitado nas preces dos inumeráveis devotos, em busca de atendimento e de consolo

Nas minhas recordações de infância, Santo Antônio não era ilustre nem letrado, era próximo e simples, quase uma pessoa da família, parente prestigioso e eficaz, sempre solicitado a resolver pequenos problemas do cotidiano, sobretudo  aqueles  que se referiam a noivo e a casmento, pois Santo Antônio fez-se o protetor das donzelas solteiras, ansiosas.

Nas festas de junho, as mais tradicionais e divertidas de nosso calendário católico, em honra de Santo Antônio, São João e São Pedro, as raparigas ameaçadas de “cair no barricão e permanecer solteironas”, triste condição, pulavam fogueiras implorando a caridade matrimonial do santo. A ele se dirigiam em orações e cantigas:

 

Santo Antônio milagroso,

protetor dos meus sentidos,

as moças ‘tão pedindo

que lhes arranje um bom marido.

 

A moça deita na cama,

dá um suspiro e um gemido,

abraça o travesseiro,

ai se fosse meu marido!

 

 Minha mãe, dona Lalu, pouco chegada às práticas religiosas, nem mística, nem beata, bastante cética, mantinha no entanto um relacionamento muito particular com Santo Antônio. Era seu santo, o único, guardava distância de todos os demais.

De Santo Antônio era íntima, de uma intimidade tão completa que o tratava por Tonho, solicitava-lhe milagres a cada momento, que pagava com velas acesas para celebrá-lo. Não eram grandes milagres, destes  capazes de provocar polêmicas no Vaticano, mas eram numerosos. Lalu cofiava em seu santo e exigia dele presteza e competência. Se ele não respondia de imediato à solicitação – encontrar um objeto perdido, fazer chover, fazer parar de chover e abrir um sol radiante, fazer seu gato vagabundo retornar da aventura da noite para dormir no seu colo –, ela ficava indignada, repreendia-o vigorosamente. Tive ocasião de, por mais de uma vez, vê-lo castigado, sua imagem posta de cabeça para baixo, por não ter feito a contento a graça solicitada.

É esse Santo Antônio que me dá coragem e ânimo para enfrentar a grandeza de vossa Universidade. Modesto escritor do povo da Bahia, da sua vida popular e pobre, tenho recebido recompensas de estima e apreço, que me honram e comovem. Mais do que os elogios, os prêmios, as láureas, o que dá satisfação e alegria ao escritor são os seus leitores, aqueles que se debruçam sobre a obra realizada e nela encontram resposta à sua emoção. Juntaram-se eles a Santo Antônio para me trazerem aqui, fazendo-me um dos vossos.

 Feliz e contente eu vos digo obrigado de todo o coração.

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