JORGE AMADO E AS ARTES PLÁSTICAS – por José Roberto Teixeira Leite

De Jorge Amado, cujo centenário de nascimento ora celebramos, desse grande e admirável romancista que também escreveu sobre arte na imprensa ou em catálogos de exposições, não se pode dizer tenha sido – e aliás nunce pretendeu ser – um crítico de arte. Disso o impedia sua proximidade com os artistas, em especial se baianos, a amizade e o carinho que lhes dedicou ao longo da vida, o que tornava impossível qualquer análise imparcial e objetiva do que produziam; terá sido, ao contrário, um daqueles amadores apaixonados que, fieis ao conselho de Rilke, confrontados com a solidão infinita de uma obra de arte preferiam a contemplação amorosa à severidade dos juízos estéticos, das análises frias. Porque Jorge, quando convidado a escrever sobre seus artistas, longe de ser árbitro impassível e distante, tornava-se parceiro, aliado, mais até do que isso – cúmplice: longe dele envolver-se na toga de juiz, empunhar a lâmina cortante de um bisturi. Por isso, muitos jovens que mais tarde se tornariam bons ou mesmo excelentes artistas lhe ficaram devendo o primeiro impulso na carreira, o estímulo inicial avalizado pelo nome prestigioso. Tome-se como exemplo esse texto profético, escrito em 1965 sobre o então muito jovem Emanoel Araújo:

 – Vejo Emanoel alegre em seu trabalho, cercado de seu mundo estranho e real: o mistério das casas e das ruas da Bahia, a dança ritual dos candomblés, a malícia e a graça dos felinos.  (… …). Guardem esse nome: Emanoel Araújo, desenhista, pintor, mas sobretudo gravador em madeira. Vai ser nome repetido e aclamado, não tenham dúvidas.

 Ah! que ninguém lhe acenasse com intrincadas teorias, nem lhe exigisse o alinhamento ao mais recente modismo importato dos States ou da Europa: arte, para ele, tinha de ser simplesmente a manifestação espontânea de uma sensibilidade, algo assim como um flor nascida do póvo e da vida, sangue, carne e magia, como escreveu em 1989 a respeito de Carybé. Pois Jorge certamente podia dizer, como outro grande romancista brasileiro, José Lins do Rego:

 Da arte dos pintores só aceito o que meus olhos vêm: bebo da água sem análises químicas.

  Assim, sempre bebendo da água puríssima das fontes da Bahia, Jorge Amado revelou, apoiou, divulgou, promoveu três gerações de artistas bahianos, entre os quais Carybé, Carlos Bastos, Genaro de Carvalho e Mário Cravo, Agnaldo, Rubem Valentim, Hansen-Bahia, Calazans Neto, Floriano Teixeira, Sante Scaldaferri e Mirabeau Sampaio, amigos queridos, alguns deles inclusive transformados em personagens de seus romances. Nunca pensou em ser crítico, não podia ser crítico, até nem gostava de críticos, sobre os quais certa vez assim falou, na apresentação de um livro de Jenner Augusto:

 – Os críticos de arte, na cômica linguagem esóterica em que exibem conhecimentos e vaidades, dirão de Jenner e da pintura por ele criada na Bahia acerto e tolices…

 Pensando bem, falar da contribuição de Jorge Amado às artes plásticas da Bahia é evocar uma história de mais de 60 anos, desde quando, em 1944, foi o organizador, com Manoel Martins e Odorico Tavares, da primeira exposição de arte moderna realizada em Salvador, em meio a um ambiente pior que hostil – indiferente; é ver como apoiou com entusiasmo todas as iniciativas que se propunham renovar o panorama artístico bahiano, fosse a criação de um novo museu, fosse a defesa desassombrada que fez da Bienal da Bahia, sob os tempos de chumbo do governo militar.

Cândido Portinari, Fumo (1938) – Pintura Mural a afresco, 280×294 cm, Palácio Gustavo Capanema, RJ

 Mas a atuação de Jorge Amado no âmbito das artes plásticas não se limitou à Bahia: estendeu-se ao país inteiro, não tivesse ele sido amigo de muito dos maiores artistas brasileiros de seu tempo, como Di Cavalcanti e Pancetti, Djanira e Portinari. Basta atentar na legião de pintores, gravadores e desenhistas que ilustraram seus livros, quase um completo dicionário da arte moderna nacional – gente como Di Cavalvanti, Goeldi, Santa Rosa, Graciano, Renina Katz, Poty, Iberê Camargo, Aldemir Martins, Carlos Scliar e Glauco Rodrigues, de cujos lapis e pincéis Dona Flor e seus dois maridos, Quincas Berro Dágua, Gabriela e seu Nassib, capitães da areia e pastoras da noite brotaram em forma e cor, dando vida a uma galeria insuperável de tipos e personagens bahianos, brasileiros e universais.

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