UMA FORMA ORIGINAL DE ESCREVER – por Arnaldo Niskier (da Academia Brasileira de Letras)

Como se desenvolveu o estilo peculiar de Jorge Amado? O que o teria influenciado? Que escritores foram importantes para que ele criasse um jeito original de escrever que tanto cativou os leitores brasileiros e estrangeiros?

As respostas não são tão simples, já que o enquadramento da obra de Jorge Amado dentro de uma linha de pensamentos baseada em estudos estilísticos deve ser uma tarefa trabalhosa. Basta observar que o período em que surge Jorge Amado, logo após a fase de contestação, de polêmicas e de busca novos caminhos, iniciado em 1922, é marcado por “extraordinária floração e esplendor“, como bem definiu Afrânio Coutinho. Por isso se torna difícil tentar compreender o estilo de Jorge Amado através de interpretações sociológicas ou teoria afins: corre-se o risco de não se ter a exata definição da arte do escrititor baiano. Também não fará sucesso aquele que tentar fazer um paralelo entre as obras e os fatos históricos ocorridos nos períodos em que foram produzidas. Esses estudos críticos não levam em conta que o autor, com sua liberdade de criação, com sua licença poética, muitas vezes preocupado com a sua “cria”, está além de fundamentações teóricas ou conceitos literários. Quer apenas desenvolver o seu romance, o seu conto, a sua poesia ou a sua crônica do jeito que a sua mente naquele momento está se propondo, numa viagem muito pessoal e intimista. Ele criou o “o estilo jorgeamadiano”, muito pesssoa, e foi muito feliz, legando ao Brasil obras inesquecíveis.

 Tudo começou, em 1931, com o lançamento do primeiro livro, O país do carnaval. As palavras escritas por Jorge Amado, naquela obra, já demonstravam que o escritor baiano seria uma voz polêmica na literatura brasileira. Vejamos:

 “Entre o azul do céu e o verde o mar, o navio ruma o verde-amarelo pátrio. Três horas da tarde. Ar parado. Calor. No tombadilho, entre franceses, ingleses, argentinos e ianques está todo o Brasil (Evoé, Carnaval). Fazendeiros ricos de volta da Europa, onde correram igrejas e museus. Diplomatas a dar ideia de manequins de uma casa de modas masculinas… Políticos imbecis e gordos, suas magras e imbecis filha e seus imbecis filhos doutores. Lá no fundo, namorando o mistério das águas, uma francesa linda como as coisas mais lindas, aventureira viajada, que dizia conhecer todos os países e todas as raças, o que equivale a dizer que conhecia toda espécie de homem“.

 O livro ainda não trazia todo o vigor que se faz presente nas outras oubras de Jorge Amado, mas polemizava quando abordava a sua aversão à deflagração da Revolução de 30, movimento que marcaria profundamente a sua atuação política a partir daquele ano. Fatos históricos internacionais, que começavam a se delinear então – como os movimentos totalitários – também foram inseridos na história. Os devaneios do intelectual Paulo Rigger, que morava em Paris e voltou à sua terra natal, para questionar fatos políticos, morais e éticos, são focalizados com maestria por Jorge Amado. Também se destacam na obra personagens como funcionários públicos, poetas, ateus e jornalistas.

 Editado pelo poeta Augusto Frederico Schmidt, o livro foi recebido por Rachel de Queiroz, sua grande amiga, com grande fervor. Este livro guarda um fato histórico, triste e lamentável: foi queimado pela polícia do Estado Novo, em Salvador, em 1937, por Jorge Amado ter sido considerado um subversivo.

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