Jorge Amado escreve para o Anuário da Literatura Brasileira-1961: “Sartre e Simone de Beauvoir viram a realidade brasileira”

Muita gente não ficou satisfeita: coquetéis, recepções, jantares preparados, um vasto programa de vida social e brilho pessoal, e foi tudo por água abaixo: Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir recusaram sistematicamente as dezenas de convites. O filósofo e a romancista não tinham vindo ao Brasil para brilhar nos salões, e repetiam, com decisão e firmeza, sua negativa. Em geral, coube-me, como velho amigo, transmitir essas negativas. E enfrentar as caras amarradas, as decepções, passar por responsável, aparecendo como um “empresário” egoísta e chato. Valeu a pena, pois o tempo que seria perdido nesses brilharetes foi muito bem aproveitado pelo casal ilustre em contactos com o povo e a gente brasileira. Sartre e Simone puderam, nos dois meses e meio que levaram em nossa terra, aprofundar-se no conhecimento da nossa realidade e no amor ao nosso povo.

Jorge Amado com Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir

Considero que essa foi uma visita importante, a mais importante dos últimos tempos. Aliás, era um velho sonho meu, a vinda de Sartre e Simone ao Brasil. Quando do Para Todos convidei-os e eles aceitaram mas as dificuldades com que vivia o jornal impediram a concretrização da idéia. Foi o I Congresso de Crítica, do Recife que possibilitou finalmente a visita. É curioso notar que Sartre e Simone sairam de Paris para “dois meses na América Latina“, visitando quatro países: Brasil, Uruguai, Chile e Peru. Logo após os primeiros dias no Brasil, desistiram dos outros países e prolongaram por mais quinze dias sua demora entre nós.

Praticamente andaram o Brasil todo, à exceção do extremo sul (foram obrigados a desistir da ida a Porto Alegre para poder ir a Manaus). Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro – três vezes -, São Paulo, Minas, Brasília, Ceará, Pará, Amazonas, eis o roteiro. Mas não apenas a visita turística a lugares, paisagens e museus, o superficial encontro com literatos e personalidades. Literatos e personalidades, Sartre e Simone evitaram o quanto puderam, fazendo um mínimo de concessões indispensáveis. Em compensação, tiveram em torno de si, permanentemente, as grandes massas de jovens, de estudantes, de operários, e conviveram com aqueles escritores e artista que mais lhes interessava conhecer, como, por exemplo Oscar Niemeyer, Gilberto Amado, Fernando Sabino, Vinicius de Moraes, Antônio Calado, Rubem Braga, Di Cavalcanti, Paulo Mendes Campos, James Amado, para citar apenas meia dúzia de nomes.

Não foi nem um passeio, escritores europeus em férias num país exótico, nem missão oficial e de propaganda colonialista, ao jeito das visitas de Malraux, Li Yutang, John dos Passos, etc. Eram dois dos escritores mais importantes do nosso tempo que tinham alguma coisa para nos dar e que desejavam aprender alguma coisa conosco.

Muito nos deram. Pode-se dizer que Sartre e Simone de Beauvoir trabalharam incessantemente todo o tempo que estiveram no Brasil: realizaram conferências por toda a parte onde passaram, nas grandes e nas pequenas cidades – inesquecível a aula de Sartre na Faculdade de Filosofia de Araraquara -, discutindo todos os grandes problemas de nosso tempo e exigindo do público que lhes respondesse sobre  o Brasil. O problema do colonialismo foi o tema fundamental dos dois mestres franceses, exemplificado nos casos candentes de Cuba e da Argélia. Da Argélia pode-se dizer que não existia entre o povo brasileiro uma consciência do problema; que só depois da passagem de Sartre e Simone se tornou popular em nosso país. Não foi por acaso que o governo francês reagiu tão violentamente ante a visita de Sartre e tratou despachar às pressas Ionesco para o Brasil… Colonialismo foi o tema central, mas, em realidade, eles discutiram com grandes massas todos os temas de nosso tempo, desde os problemas atuais da mulher, o “segundo sexo”, tão caros a Simone de Beauvoir, até as questões literárias, o “romance burguês e o romance popular“ para cujas teses, levantadas há anos por Sartre, ele aqui encontrou material a provar-lhe como estava acertado.

O que lhes demos nós? A visão de um país em marcha, com profundas e terríveis contradições (e Sartre apontou a mais profunda de todas: o desenvolvimento industrial com o crescimento do proletariado citadino no sul do país ao lado da alucinante miséria do camponês do nordeste e do norte), um país de características absolutamente próprias ante as quais rui qualquer esquema, qualquer transposição mecânica de soluções aplicadas, mesmo com êxito, em outras partes. Quantas vezes não os vi repetir: “- Mas isso é impossível, isso não existe, isso não acontece em lugar nenhum”, ante as coisas que só no Brasil sucedem, essa nossa bela e admirável capacidade de tudo resolver “dando jeitinho”. Creio, no entanto, ter sido a visão de nossa democracia racial a maior marca de nosso humanismo, nossa contribuição real à cultura mundial, o que de melhor lhes demos. Tive ocasião de vê-los emocionados ante esse povo misturado de sangue e de cor.

Muita gente deve ainda estar esperando os artigos, estudos, novelas de Sartre e Simone sobre o Brasil. Vão esperar inutilmente. Não estamos diante desses literatos de fancaria que passam uma semana num país tropical e, em seguida, começam a encher papel com observações tolas e falsas sobre gente e paisagens. Sartre e Simone consideraram que dois meses e meio é pouquíssimo tempo para conhecer um país grande como um continente, grávido de problemas, com tanto caráter nacional. Escrever sobre o Brasil, só depois de outra viagem que eles anunciam para daqui a um ano, viagem sem compromissos, quando possam, liberados de quaisquer obrigações, manter um contacto ainda maior com o povo.

Uma coisa é certa: o Brasil ganhou dois grandes amigos. O sentimento que despertamos em Jean-Paul-Sartre e em Simone de Beauvoir foi de acendrado amor. Amaram as pontes do Recife, as ruas da Bahia, as mães-de-santos, os trabalhadores nos cacauais do sul do Estado, praia de Copacabana e o povo do Rio, os livros de Gilberto Freyre, a gente de São Paulo e os operários, os estudantes de toda a parte, os profetas do Aleijadinho em Congonhas, as batidas de limão e os refrescos de cajá, mangaba e pitanga, a arquitetura de Oscar Niemeyer em Brasília e o próprio Oscar (“esse é realmente um grande artista e um grande homem“, dizia Sartre), o rio Amazonas, a literatura de vários escritores, a caatinga cearense. De Paris, reclamam o material prometido para o número especial de \Les Temps Modernes sobre o Brasil, número aqui tantas vezes discutido com Eduardo Portela ou com Antônio Calado. Mas levaram do Brasil conhecimento suficiente para não exagerar seu otimismo: prometemos muito mas nem sempre gostamos de cumprir. E os materiais não vão, adiados sempre, como é nosso gostoso hábito.

Amo recordá-los cercados de jovens, a explicar e a ouvir. Ou sozinhos os dois, anônimos nas ruas, andando entre o povo na ânsia de entender o Brasil. Ou a ouvir a nossa música popular, João Gilberto ao violão, as melodias crescendo.

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