MUNDO CÃO – PIRÓMANOS DESTRAMBELHADOS – por José Goulão

Como se não houvesse chamas suficientes, as últimas notícias que chegam do Médio Oriente são ainda mais perturbadoras. Os dois principais dirigentes israelitas, o primeiro ministro, Benjamin Netanyahu, e o ministro da Defesa, Ehud Barak, pretendem desencadear a guerra contra o Irão ainda antes da primeira terça-feira de Novembro próximo, a data das eleições presidenciais norte-americanas. Ao contrário do que se previa, os dois mais importantes e actuais agentes do expansionismo israelita não conseguiram ainda a maioria suficiente no gabinete restrito que se encarrega da segurança – da guerra, melhor escrevendo – mas fica dado o sinal.

A notícia foi dada pelo jornal israelita de maior circulação, o Yedioth Aharonoth, e os dois dirigentes não quiseram comentá-la – mas não a negaram.

Não é a primeira vez que surge este cenário. Ao longo dos últimos meses foi ficando claro que os mais influentes políticos israelitas querem realizar ataques militares contra “instalações nucleares” iranianas ainda antes das eleições presidenciais nos Estados Unidos. Isto é, consideram fundamental para a sua estratégia que a consulta eleitoral norte-americana decorra sob uma tempestade de amplitude nunca vista no Médio Oriente, amarrando desde logo a agenda da discussão e as decisões a uma situação limite no quadro internacional. Combinada com uma campanha de propaganda avassaladora própria da enorme influência israelita sobre os mais poderosos meios mundiais de comunicação, a retórica “defensiva” da agressão contra o Irão será susceptível de revolver todos os pressupostos em que até agora tem decorrido o longo processo eleitoral nos Estados Unidos.

É certo que os dois mais graduados “falcões” israelitas foram derrotados numa estrutura onde era suposto ganharem; é verdade que, horas depois da divulgação da notícia, a administração Obama reafirmou a convicção de que o Irão não está ainda em condições de fabricar a bomba atómica; sabemos ainda que nos experientes e experimentados círculos da espionagem e contra-espionagem israelita as operações militares contra o Irão não são nada bem vistas, encaradas até com muitos receios tanto em termos de eficácia como de amplitude das respostas inimigas. O ex-chefe da Mossad não tem dúvidas: os ataques não conseguirão liquidar o potencial nuclear iraniano na sua globalidade e as eventuais respostas de Teerão poderão ser trágicas para Israel.

O risco é elevado, mas não tem dissuadido a cruzada de Netanyahu e Barak, admitindo-se que possam ainda virar a relação de forças a seu favor num quadro de instabilidade global nunca visto no Médio Oriente desde a Segunda Guerra. A indefinição no Egipto, a guerra sem fim na Síria envolvendo potências sunitas árabes e não árabes, a volatilidade no Líbano, a incontrolada violência no Iraque, a fragilidade jordana, o arrastamento da questão israelo-palestiniana são situações de uma gravidade e de uma imprevisibilidade assustadoras. Acrescentemos-lhes uma guerra entre Israel e o Irão associada ao diferendo sobre quem tem e quem não tem bombas atómicas e tornar-se-á muito difícil prever as fronteiras do incêndio assim provocado. Israel e a NATO perceberão muito rapidamente, mas tarde,  o erro de continuarem a alimentar o antagonismo entre sunismo e xiismo para isolar o Irão e o actual regime sírio. O que conjunturalmente funciona em termos de elites políticas não se transmite da mesma maneira às imensas e desesperadas massas islâmicas.

A realidade emergente não caberá em quaisquer teorias de Estados Maiores, em elucubrações de políticos e generais tão cúmplices como irresponsáveis – que serão liminarmente ridicularizadas pelas circunstâncias. Em tal inimaginável cenário os experientes Benjamin Netanyahu e Ehud Barak, juntamente com os aliados que tudo lhes desculpam e permitem, não passarão de aprendizes de feiticeiros a brincar com o fogo, autênticos pirómanos destrambelhados.

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