Para a história dos Encontros das Páginas Culturais – por Carlos Loures

Dentro de um livro que, pelos vistos, esteve quase cinquenta anos sem ser consultado, encontrei uma descrição que escrevi “a quente”, em 17 de Junho de 1964, sobre o Encontro realizado no Hotel Baía, em Cascais. As palavras que coloco entre aspas correspondem exactamente ao que foi dito, pois a Manuela Camecelha estenografou as intervenções. Acrescente-se que, além de mim, outros argonautas estiveram ligados ao movimento das Páginas Culturais – o António Sales e o Manuel Simões, por exemplo. Mas voltemos à tal memória escrita.

Digo no tal escrito que «o mais confrangedor foi verificar a cobardia daquela gente, medindo cautelosamente as palavras, empalidecendo sempre que se dizia algo com “carácter político”. O M., a certa altura, afirmou que «O nosso objectivo deve ser o de confraternizar, conviver, pondo de parte tudo o que não for realista». Discutia-se a viabilidade de se elaborar um boletim dos suplementos. Respondi-lhe: «Isso que diz, conviver, confraternizar em almoços, já se vê, pertence aos processos dos rotários. Nós estamos aqui, ou deveríamos estar, para ganharmos uma consciência de luta, para nos unirmos e lutarmos juntos; pretender publicar um boletinzinho  já representa uma grande humildade da nossa parte, pois os nossos objectivos deviam ser mais ambiciosos».

Note-se, acrescento agora, que no princípio do ano seguinte fui preso pela PIDE e o boletim que já estava a ser publicado foi a alegada causa para a busca que a brigada fez em minha casa, situada por cima da pequena tipografia onde o boletim estava a ser composto. Aliás, sempre foi convicção, minha e de outras pessoas, que terei sido denunciado por um sacerdote católico que representava um jornal da sua diocese. O escritor cujo nome não refiro é um homem de esquerda, medroso, talvez sabendo que havia informadores da polícia na reunião, mas nunca me denunciaria.

Tive apoios. O Manuel Ferreira que, em nome da Sociedade Portuguesa de Escritores, presidia aos trabalhos interveio por diversas vezes apoiando-me e aos outros que remavam contra a corrente – nomeadamente o  Joaquim Benite e o Orlando Gonçalves, do “Notícias da Amadora”.

Eis a minha intervenção final: «Prezados amigos: antes de darmos os trabalhos por encerrados, vou apresentar uma proposta, embora saiba que vou ser, mais uma vez, acusado de megalomania, de ser irrealista… Mas mesmo assim, apresento-a.

«Todos sabemos as condições em que se trabalha na imprensa portuguesa, nomeadamente na imprensa regional. Se a nossa missão é servir o povo, divulgar a cultura, disso estamos impedidos por uma censura feroz e injusta»… regista-se, tosse, protestos…«Se não concordo com a existência da Censura, concordo ainda menos com o critério censor, cujas arbitrariedades são constantes. Antes de concretizar a minha proposta, peço que não se lhe encontre um carácter subversivo que não tem. Apenas a move o desejo de que  a cultura chegue às camadas mais desprotegidas».(…)«Proponho-vos que à entidade competente, creio que ao Ministro do Interior, seja enviado um pedido de suavização do critério censor, de objectivização desse critério, em relação aos suplementos culturais». Houve gritos de «apoiado» e após um silêncio embaraçoso, pedidos de inscrição. M. muito nervoso, disse que a minha proposta não era sensata e que pedir ao ministro do Interior que suavizasse o critério censor era uma utopia. Ao qualificar como feroz a censura, cortara a possibilidade de diálogo. ”. O Joaquim Benite disse numa apreciação global dos trabalhos, provocando uma gargalhada geral, que o debate tinha sido «uma mera preparação para o banquete». E, de facto, foi-nos oferecido um banquete formidável. Nem tudo se perdeu…

Mas a proposta foi aprovada. E como  o banquete esperava, foi nomeada uma comissão ad hoc para redigir a petição ao senhor ministro. Nomeados, eu, autor da proposta, Orlando Gonçalves, Joaquim Benite, o padre e o escritor medroso. Os que mais tinham intervindo, afinal. A proposta foi escrita nos termos formais que eram exigidos. O escritor encarregou-se de a enviar. Coisa que não deve ter feito.

Leave a Reply