14 DE AGOSTO – UMA BATALHA E UM MASSACRE – por Carlos Loures

Há 617 anos travou-se a Batalha de Aljubarrota. Foi um rude golpe para as pretensões castelhanas de se apoderarem deste pequeno reino que, a oeste da Península desafiava o seu poder militar. Na Espanha actual fala-se pouco de Aljubarrota. As enciclopédias dedicam-lhe pequenos verbetes e os livros escolares uma ou duas linhas. E no entanto, foi uma dura derrota que atingiu profundamente o reino de João II – quase todas as grandes famílias castelhanas perderam familiares na batalha. O luto e a tristeza foram de grande dimensão. Mas queria falar de um outro acontecimento ocorrido neste dia 14 de Agosto , mas em 1936 – o massacre de Badajoz.

Desencadeada a guerra em 18 de Julho, as colunas do Exército de África, .constituídas essencialmente por legionários e por tropa moura, sob o comando do tenente coronel Yagüe, avançaram rapidamente até Badajoz, onde se lhes deparou uma forte resistência por parte do Exército da República. Após duros combates e bombardeamentos sucessivos feitos pelos junkers alemães,  a cidade foi tomada pelas forças nacionalistas. Como sempre acontecia, adivinhava-se que Badajoz ia pagar com juros o empenho que pusera na sua defesa.

Os jornalistas que acompanhavam a coluna de Yagüe na sua avançada, foram proibidos de entrar. No entanto., vindos de Portugal pela fronteira do Caia, o jornalista português do Diário de Lisboa,  Mário Neves, e os franceses Jacques Berthet do Temps, e Marcel Dany da Agência Havas, conseguiram entrar na cidade no dia quinze de Agosto.  Através dos relatos destes três jornalistas, a reportagem do fotógrafo René Bru, da Pathé Newsreels, e pelo que escreveu o norte-americano Jay Allen, correspondente do Chicago Tribune, que chegou a Badajoz nove dias depois, o mundo pôde conhecer a dimensão da onda de terror que acompanhava o avanço das forças nacionalistas pelo sul de Espanha.

 Nos primeiros momentos após a tomada de Badajoz, legionários mouros fuzilavam sumariamente todos os homens que encontravam pelas ruas com sinais de haverem disparado uma espingarda. Posteriormente, foram concentrando os prisioneiros na praça de touros, onde os iam fuzilando por grupos com metralhadoras. Também se fuzilava no fosso das muralhas e nas portas do cemitério.

No dia dezasseis, uma coluna de fumo branco que se elevava a um quilómetro e meio da cidade atraiu a atenção do jornalista português Mário Neves. Pessoas a quem perguntou respondia que naquela zona estava o cemitério. No dia seguinte, cruzou-se casualmente com um padre e travou  conversa com ele. Foi este padre quem explicou a origem da misteriosa coluna de fumo – : era dos cadáveres! Amontoavam-nos no cemitério, regavam-nos com gasolina e deitavam-lhes fogo. O próprio sacerdote o levou ao cemitério. A impressão foi-lhe tão forte que Mário Neves começou o despacho telefónico desse dia assim: «Vou partir. Quero deixar Badajoz, custe o que custar, o mais depressa possível e com a firme promessa à minha própria consciência de que não mais voltarei aqui.

Voltou após quarenta e seis anos  a pedido da cadeia inglesa Granada TV, que preparava uma série intitulada The Spanish Civil War.» Vamos ouvir uma parte do seu testemunho.

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