Logo a seguir ao 25 de Abril fui à Vila Sousa, ali no Largo da Graça, em Lisboa, e integrei-me no bando de malucos do Tomás de Figueiredo. Acho porém que fomos dos mais ajuizados em toda a Esquerda… Tendo fugido para a Espanha e para o Brasil tantos industriais, achámos que já era tempo de ajudar os operários a converter as fábricas abandonadas em cooperativas de produção. Fomos muito censurados:
– Ó Tomás, ó Fernando, primeiro toma-seo Estado e só depois, com as nacionalizações, é que se muda a estruturaeconómica.
Não acreditámos na mediação dos aspirantes a funcionários públicos. Repudiámos as greves de protesto contra a ausência dos patrões e arregaçámos as mangas.
Achámos que a mudança teria que ser de baixo para cima, ou então mudança deixava de ser. Na Esquerda até houve quem afirmasse que estávamos infiltrados pela CIA e nos movesse luta mais acirrada do que a Direita. A qual, ao tempo, andava muito envergonhada. Por pouco tempo, aliás, pois nada mudara de baixo para cima…