João Cabral de Melo Neto – Brasil
(1920 – 1999)
A CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Não há guarda-chuva
contra o poema
subindo de regiões onde tudo é surpresa
como uma flor mesmo num canteiro.
Não há guarda-chuva
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que tritura como um desastre.
Não há guarda-chuva
contra o tédio:
o tédio das quatro paredes, das quatro
estações, dos quatro pontos cardeais.
Não há guarda-chuva
contra o mundo
cada dia devorado nos jornais
sob as espécies de papel e tinta.
Não há guarda-chuva
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.
(de “Poesia Crítica.Antologia”)
Um dos grandes poetas do século XX, João Cabral pertence à geração brasileira de 45 e é talvez o poeta que antecipou a poesia concreta e a poesia “praxis”. Compôs o famoso texto teatral, “Morte e vida Severina”, musicado por Chico Buarque de Holanda e de grande sucesso mundial. Da sua imensa obra poética, destaca-se aqui “O Engenheiro” (1945), “Psicologia da Composição” (1947), “Uma faca só lâmina” (1955), “Educação pela pedra” (1966), “Poemas pernambucanos” (1988) e “Sevilha andando” (1989).

