POESIA AO AMANHECER (8) – por Manuel Simões

João Cabral de Melo Neto – Brasil

(1920 – 1999)

A CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Não há guarda-chuva

contra o poema

subindo de regiões onde tudo é surpresa

como uma flor mesmo num canteiro.

Não há guarda-chuva

contra o amor

que mastiga e cospe como qualquer boca,

que tritura como um desastre.

Não há guarda-chuva

contra o tédio:

o tédio das quatro paredes, das quatro

estações, dos quatro pontos cardeais.

Não há guarda-chuva

contra o mundo

cada dia devorado nos jornais

sob as espécies de papel e tinta.

Não há guarda-chuva

contra o tempo,

rio fluindo sob a casa, correnteza

carregando os dias, os cabelos.

(de “Poesia Crítica.Antologia”)

Um dos grandes poetas do século XX, João Cabral pertence à geração brasileira de 45 e é talvez o poeta que antecipou a poesia concreta e a poesia “praxis”. Compôs o famoso texto teatral, “Morte e vida Severina”, musicado por Chico Buarque de Holanda e de grande sucesso mundial. Da sua imensa obra poética,  destaca-se aqui “O Engenheiro” (1945), “Psicologia da Composição” (1947), “Uma faca só lâmina” (1955), “Educação pela pedra” (1966), “Poemas pernambucanos” (1988) e “Sevilha andando” (1989).

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