A REPRODUÇÃO SOCIAL RESULTA DA CIRCULAÇÃO DE PESSOAS E BENS: A ECONOMIA DOMÉSTICA -por Raúl Iturra

A nossa observação tem sido, até agora, sobre os processos conceituais que organizam a circulação de pessoas e bens dentro da cultura. Cultura que tenho definido como parte da teoria religiosa que orienta o pensamento das pessoas e a sua interação. O mais importante para mim, é o conceito de interação social. Define a estrutura das ideias com as quais os membros de um grupo trocam pessoas e bens.

 

Essa interação tem sido definida desde os tempos de Durkheim[1], quando o autor diz que há factos exteriores coercitivos ou supre orgânicos, que determinam as formas de agir ou de ser. É mais tarde que esta ideia, depreendida dos intelectuais do Século XIX, como Spencer[2] e Marx[3], altura em que a biologia era um tema extremamente debatido  e trazido ao saber por Darwin[4] e espalhado pelas ideias dos que pensavam o social como um corpo orgânico que tinha factos além de si ou supre orgânicos para decidir o quê fazer no dia a dia. Era a época que os cientistas queriam explicar o real social para além da Teologia. A interação social, como conceito, fez o papel de fixar, dentro do social, a atividade humana e retirar o afazer do saber biológico ou supra orgânico. Assim, o social passou a ser um conjunto de seres humanos a definir as suas regras de ação. Por outras palavras, o conceito de interação social define o contexto histórico e conjuntural dentro do qual se processa a vida humana e se entende a realidade. Não é em vão que Peter Berger e Thomas Luckmann[5] falem, anos mais tarde, qual a perceção da realidade: é interativa. A troca de palavras, a troca de símbolos, a conversa, a afetividade, o saber, o comércio, a oferta e a procura, a hierarquia social, a crença, passam a ser a forma e maneira de construir o social e não o abafo de uma instituição supra orgânica como Durkheim tentara de provar. Os autores citados afirmam: “The reality of everyday life is shared with others. But how are these others themselves experienced in everyday life? Again, it is possible to differentiate between several modes of such experience… The most important experience of others takes place in the face-to-face situation, which is the prototypical case of social interaction… All other cases are derivatives of it…In the face-to-face situation; the other is presented to me in a vivid present shared by both of us” (op.cit. pg. 43 e ss.). Por outras palavras, em cada situação quotidiana criamos uma relação da qual apreendemos o que percebemos do outro e entendemos por causa não apenas do que diz ou faz, mas por causa do lugar social que ocupa. A maior interação reside na economia de trocas da qual toda sociedade vive, como afirmam Bottomre e Nisbet[6] ao analisar o método interativo da sociologia pela mão de Berenice M.Fisher e Anselm Strauss[7]. A economia de trocas é a fabricação de objetos de uso necessário aos outros e incapazes de fazer todo o que é preciso consumir para viver. Tal e qual fazem entre eles as pessoas que vivem em permanente interação, o grupo doméstico, conceito estudado e definido, depois de um cumprido processo de analise feito entre os Lo-Dagaa e os Lo-Wiili, na antiga Costa Dourada de  África, hoje denominada Ghana, por Jack Goody[8]. Essa definição baseia-se na analise histórica do conceito de família e de lar e diz: “Domestic groups are those basic units which in preindustrial societies revolve around the hearth and the roof, the bed and the farm, that is, around the process of production and reproduction, of shelter and consumption”[9].

 


[1] The rules of Sociological Method (1895) 1980: As regras do método sociológico, Presença, Porto

[2] Spencer, Herbert, 1860: “The social organism” in Westminster Review, 17: 90-121.

[3]Mark, Karl (1846, 1939) 1977:A ideologia alemã, MacMillan, Londres; (1845-6) 1977: Communist Manifesto, MacMillan, Londres.2002, Net.

[4] Darwin, Charles, 1859: Origin of species, Cambridge. Grã- Bretanha.

[5] Berger, Peter, e Luckmann, Thomas, 1966: The social construction of reality, Penguin, Londres.

[6] Bottomore, Tom e Nisbet, Robert, (orgs.) 1978: A history of sociological analysis, Heinemann, Londres.

[7]  B .Fisher e A. Strauss, Interactionism em Bottomore e Nisbet, op.cit, pgs 456 e ss.

[8] Goody Jack, 1972: Domestic Groups, An Addison-Wesley Module in Anthropology, Massachusetts, USA.

[9] Goody, Jack, op.cit, pg 28-4.

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