Praxedes não se dispensa um só dia de ler as gazetas sérias. Ao acordar de manhã cedo, antes mesmo que sua esposa, com o carinho enquistado de vinte e sete anos de matrimónio com medalha de comportamento exemplar, lhe venha trazer o café com leite e a torrada, que são dogma da religião caseira, o Praxedes desdobra o seu jornal pacato, jornal de família, e lê tudo o que se passa nesta Lisboa, desde as conferências das comissões provinciais com o sr. ministro do fomento até aos roubos de forasteiros. Para o fim, guarda a enfiada de telegramas estrangeiros e é com veneração e assestando melhor a sua luneta, que ele se informa dos terramotos que tem havido em Honolulu e das revistas que Guilherme II tem passado às suas tropas. Há dias, uma notícia lacónica magoou-o bastante: o Papa estava doente. Quando a torrada compareceu ladeando a tijela do café com leite, comunicou a nova a sua esposa, que não pareceu preocupar-se muito com o caso. No eléctrico, indo para a repartição, insinuou a um sujeito conhecido, no meio da palestra:
― Então o papa está doente?
O outro não fez reparo. Ao chegar ao ministério, disse ao amanuense, que se lhe senta à destra na enfiada de mesas envernizadas:
― Então o papa tem passado mal?
― Ainda bem ― refilou o outro, que não pode cheirar homens de saias.
No jornal da tarde reproduzia-se a notícia. Praxedes, ao chá, tornou a insistir junto da madama:
― O papasinho, coitado, lá está de cama…
― E a D. Joaquina também, ― concordou a mulher, que tem a vizinha de baixo em disposições de dar mais um filho à terra portuguesa.
No outro dia, Praxedes foi espreitar à secção estrangeira, mal chegou o jornal. O papa estava na mesma. Praxedes falou nisso a quatro ou cinco pessoas, que não manifestaram o menor interesse. Nos dias seguintes, sempre que chegavam notícias pelos fios de Roma, Praxedes se compungia com as poucas melhoras do Soberano Pontífice, até que, arreliada, D. Genoveva, lhe perguntou um pouco rispidamente:
― Mas afinal que tens tu com isso?
― Ora essa! É que eu padeço do catarro.
― E depois?
― Depois? Gostava de ver se é moléstia de que uma pessoa morra, mesmo sendo papa.
11 de Março de 1912
