Por Júlio Marques Mota
(continuação)
II Parte – Os desequilíbrios actuais e os seus riscos.
Embora a recente cimeira europeia não tenha conseguido “produzir nada de substancial em termos quer seja de detalhe quer seja de acção imediata, as declarações da Cimeira eram porém bem significativas na medida em que as autoridades nos sugeriram estarem finalmente a reconhecer que a arquitectura institucional do euro é bem defeituosa assim como o são igualmente as características de suas políticas de resgate.
Diagnosticar correctamente o problema é o primeiro passo no sentido de o poder resolver. Assim como se saúda a apresentação de propostas para resolver os problemas que os riscos dos sectores bancários colocam aos respectivos países e os colocados pelos programas de resgate oficiais que subjugam os credores do sector privado, também será importante a apresentação de propostas com um programa detalhado e calendarizado para uma maior união política, orçamental e financeira.
Isso é por causa da perda de confiança por parte das empresas e dos investidores na existência do euro sustentado é já considerável, provocando danos económicos e financeiros consideráveis. Um processo que possa gradualmente reconstruir a confiança havida é também ele vital.
Continua a ser questionado se os políticos actuais da Europa são capazes ou não de o fazer. Pelo que tem sido visto os investidores têm o direito de estarem cépticos .
E esta perda de confiança continua a manifestar-se nas substanciais saídas de capitais originários dos países periféricos. A questão não é se a Itália e a Espanha podem permanecer no euro mas sim se o euro pode permanecer em Itália e em Espanha. As saídas de capital têm estado a crescer – e o caso da Espanha atingem cerca de 50% do PIB – ou mais ainda.
Apesar destas saídas terem sido compensadas por um aumento de responsabilidades TARGET2 na base dos bancos centrais dos países periféricos, a qualidade do capital que flui para fora – em termos económicos – aparece como sendo de qualidade mais elevada do que a qualidade da moeda do banco central que flui para dentro do país. E isto está a levar a um custo elevado e crescente no levantamento de capitais para o sector privado nos países ditos periféricos tanto em termos absolutos como relativos ao núcleo da Europa: as taxas de juros cobradas pelos bancos para as empresas e as famílias claramente subiram muito e outras medidas não-bancárias dos custos de capital são também elevados. Por outro lado os empréstimos bancários e as medidas sobre a a procura interna têm simplesmente falhado.
Se a incerteza sobre o futuro da zona euro estivesse a diminuir, assim também seria relativamente ao vigor da saída dos fluxos de capital e do seu impacto negativo sobre a economia real.
Por isso, é de considerável urgência que a Europa de uma forma credível ponha em prática o que anuncia em cada cimeira . Dada a rapidez a que o capital do sector privado está a deixar os países periféricos, as falhas e os contratempos acarretam provavelmente custos bastante elevados em termos da estabilidade financeira e da actividade económica na periferia. A situação, particularmente no caso da Espanha, está até a começar a dar a ideia de que a fuga de capitais se auto-alimenta a si mesma. Assim, o tempo de resposta pode ser limitado. E, nesse entretempo a tensão económica e financeira parece destinada a continuar.
Apesar de ter sido, até mesmo pelos padrões habituais, bem curta em detalhes, a declaração emitida na recente cimeira europeia pode ser visto como um passo positivo na medida em que sugere os políticos europeus finalmente estão a aceitar que a actual arquitectura financeira da zona euro é defeituosa.
Apesar da falta de acções concretas, as propostas para abordar questões como a interligação e as interacções existentes a situação dos bancos e a dos seus estados soberanos assim como com a subordinação dos credores existentes devem, se implementadas, poderão eliminar algumas das tensões financeiras actualmente existentes na zona euro.
Uma proposta que poderia, eventualmente, ter e de longe um muito mais forte impacto sobre a zona euro seria o estabelecimento de um detalhado e bem calendarizado “roteiro” no sentido de se alcançar uma bem mais profunda União orçamental e política, o que será discutido nas cimeiras de Outubro e Dezembro. Não está claro nas condições actuais que roteiro convincente ou credível pode ser feito, nem se os seus Estados-membros concordam com isso, nem, se o fizerem, se os dirigentes políticos serão capazes de o levar à prática, de o tornarem de forma convincente uma realidade.
Mas, na medida em que quanto maiores forem os progressos nesta matéria, mais os investidores e as empresas poderão estar confiantes de que a existência do euro – e com países membros como a Espanha e a Itália – está assegurada. A actual falta de confiança é, na nossa opinião, um factor decisivo e é também a causa do enfraquecimento do nível de actividade de ambos, da periferia e de modo crescente dos países do núcleo central também .
A nível das grandes empresas as quedas acentuadas da confiança das empresas nos últimos meses estarão provavelmente a reflectir de modo crescente incerteza sobre o futuro a curto e a longo prazo do euro.
E por sua vez, a queda na confiança leva provavelmente a que o PIB continue a contrair-se ao longo dos meses a meio do ano, como o tínhamos previsto.
Da mesma forma que a estabilidade económica e financeira, embora mais urgente ainda, é a necessidade de enfrentar a perda de confiança por parte dos investidores.
Na nossa opinião, as saídas continuas e substanciais de capitais em economias como a Itália e a Espanha gera não só um considerável esforço financeiro como também intensifica as pressões à descida dos níveis de actividade na periferia.
Estes fluxos de capitais são evidentes nos dados da balança de pagamentos da zona euro. Na medida em que a balança de pagamentos actualmente está indicar saídas substanciais de capitais de países como Espanha e Itália para a Alemanha, o saldo TARGET2 é um indicador útil e oportuno para detectar o ritmo estes fluxos. E os dados mostram uma saída considerável e substancial saída de capitais no primeiro semestre de 2012.
Um longo e entediante debate sobre estes saldos levaria a que nos afastemos desta questão central e essa é a nossa opinião. Para nós, o que é importante são os factores determinantes que nos levam a estes saldos e quais são os seus efeitos sobre as condições financeiras e económicas.
