UM ENCONTRO COM UMA BALEIA FRANCA. Por Luís Rocha.

Este texto foi publicado no Estrolabio em 4 de Outubro de 2010

Península de Valdés ( Argentina)

A cerca de 80 Km da cidade de Puerto Madryn, estende-se ao longo de 360 000 hectares, esta Reserva Natural, com tão destacável população faunística ( baleias, lobos e elefantes marinhos, pinguins …) que a UNESCO declarou “Património da humanidade”.

Foi aí que tive o primeiro e único contacto visual com uma baleia (Baleia Franca Austral) e a sua cria que chegam ao Sul em junho e até dezembro habitam as águas do golfo para acasalar e dar à luz a seus filhotes. Ao nascer medem entre 4 e 6 metros e pesam aproximadamente umas 3 toneladas.

O barco aproximou-se de uma baleia com o seu filhote. Parou os motores a cerca de 200 metros e ficámos ali a flutuar e a ver os mergulhos e subidas à superfície, daquele enorme animal.

O Capitão do barco pediu silêncio. Aos poucos a baleia foi-se aproximando e começámos a ver o filhote que deslizava na água por debaixo dela, ao mesmo tempo que o guia informava que o bebé mamava cerca de 200 litros de leite por dia.

A baleia foi-se aproximando cada vez mais ao ponto de erguer a cabeça fora de água junto ao barco, para nos ver. Depois mergulhou de novo e começou ás voltas, passando por debaixo do mesmo e provocando uma onda e balançar do barco, para a qual já estávamos avisados.

A curiosidade da baleia deveria ser igual á nossa e por isso ela presenteou-nos com várias vindas á superfície, mesmo junto de nós.

Aí dei comigo a pensar no pouco que sabia sobre este enorme animal e como afinal era tão fácil arpoá-lo, como faziam os primeiros caçadores de baleias.

O problema vinha a seguir pois o animal sentindo-se ferido, arrastava os pequenos barcos, fazendo mortos ou heróis os que conseguiam manter-se arrastados até á exaustão do animal e depois então matá-lo (muitas lendas foram publicadas sobre estas aventuras).

Este rápido pensamento despertou em mim uma nova sensação de carinho por um animal, como nunca tinha sentido antes por qualquer outro.

A imagem das suas passagens, de lado, à frente e por debaixo do barco, aparecendo depois mesmo junto de nós, como a querer beijar-nos provocou-me uma nova sensação de amor, por mais um irmão que vive e depende da nossa mãe comum “ A natureza”.

Senti a sua solidão naquele mar imenso mas também o conforto do amor ao filhote que a acompanha e ao ser humano que a visita.

Cada mãe faz por si e pelo seu filhote. E isto cada vez mais coloca o ser humano ao nível destes animais que, irracionais, terão eventualmente a vantagem de não sofrer os efeitos da solidão, da falta da partilha da forma de viver, do que vê, do que sente e como o sente.

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