POESIA AO AMANHECER (13) – por Manuel Simões

Noémia de Sousa – Moçambique

(1926 – 2002)

DEIXA PASSAR O MEU POVO

Noite morna de Moçambique

e sons longínquos de marimbas chegam até mim

– certos e constantes –

vindos nem eu sei donde.

Em mim casa de madeira e zinco,

abro o rádio e deixo-me embalar…

Mas as vozes da América remexem-me a alma e os nervos

e Robeson e Marian cantam para mim,

spirituals negros de Harlem,

«Let my people go»

– oh deixa passar o meu povo,

deixa passar o meu povo! –

dizem.

E eu abro os olhos e já não posso dormir.

[…]

Todos se vêm debruçar sobre o meu ombro,

enquanto escrevo, noite adiante,

com Marian e Robeson vigiando pelo olho luminoso

do rádio

– «let my people go

oh let my people go»!

E enquanto me vierem de Harlem

vozes de lamentação

e meus vultos familiares me visitarem

em longas noites de insónia,

não poderei deixar-me embalar pela música fútil

das valsas de Strauss.

Escreverei, escreverei,

com Robeson e Maria gritando comigo:

«Let my people go»

OH, DEIXA PASSAR O MEU POVO.

(de “Sangue Negro”)

A poética de Noémia de Sousa é marcada pela constante e persistente presença das raízes africanas, de protesto e de denúncia. Autêntica pioneira (com Craveirinha) da literatura moçambicana, a sua poesia assume-se como representação da voz do povo. Refractária a reunir em volume os seus poemas, embora se encontrem em muitas antologias que a divulgaram a nível internacional, em 2001 publicou-se uma colectânea da sua obra, “Sangue Negro”, em homenagem ao seu 75º. aniversário.

 

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