Noémia de Sousa – Moçambique
(1926 – 2002)
DEIXA PASSAR O MEU POVO
Noite morna de Moçambique
e sons longínquos de marimbas chegam até mim
– certos e constantes –
vindos nem eu sei donde.
Em mim casa de madeira e zinco,
abro o rádio e deixo-me embalar…
Mas as vozes da América remexem-me a alma e os nervos
e Robeson e Marian cantam para mim,
spirituals negros de Harlem,
«Let my people go»
– oh deixa passar o meu povo,
deixa passar o meu povo! –
dizem.
E eu abro os olhos e já não posso dormir.
[…]
Todos se vêm debruçar sobre o meu ombro,
enquanto escrevo, noite adiante,
com Marian e Robeson vigiando pelo olho luminoso
do rádio
– «let my people go
oh let my people go»!
E enquanto me vierem de Harlem
vozes de lamentação
e meus vultos familiares me visitarem
em longas noites de insónia,
não poderei deixar-me embalar pela música fútil
das valsas de Strauss.
Escreverei, escreverei,
com Robeson e Maria gritando comigo:
«Let my people go»
OH, DEIXA PASSAR O MEU POVO.
(de “Sangue Negro”)
A poética de Noémia de Sousa é marcada pela constante e persistente presença das raízes africanas, de protesto e de denúncia. Autêntica pioneira (com Craveirinha) da literatura moçambicana, a sua poesia assume-se como representação da voz do povo. Refractária a reunir em volume os seus poemas, embora se encontrem em muitas antologias que a divulgaram a nível internacional, em 2001 publicou-se uma colectânea da sua obra, “Sangue Negro”, em homenagem ao seu 75º. aniversário.

