A HISTÓRIA PODE DAR ALGUMA AJUDA – por Carlos Leça da Veiga

 

Nas mentes perversas de quantos têm mandado no viver dos europeus não há a consciência – pelo menos, não parece haver – que está a terminar a época em que, no chamado mundo ocidental, de sobremaneira no europeu, está em aproximação veloz o fim da acumulação, continua, desenfreada e num crescendo ininterrupto dos lucros do capital. Salta à vista que esses capitalismos colonialistas são impedidos de prosseguir pela força concorrencial desmedida das novas e poderosas economias instaladas fora da Europa (quantas delas, antigas colónias) para as quais, com justiça plena, chegou a hora de inverter as conveniências do tradicional centralismo colonizador muito próprio dos europeus e, como assim, de assistir-se ao transportar da sede das decisões internacionais para fora da Europa, muito especialmente, senão decididamente, para as margens do Oceano Pacífico.

É esta enorme transformação histórica que os possidentes deste ocidente velhão – donos tradiconais do mundo – julgam poder contrariar mas que, depauperados e sem força internacional bastante, para sua sobrevivência, optam por querer fazê-lo à custa do esmagamento económico, político e social, desde logo, para começo, das periferia europeias – as suas colónias mais à mão –  e, sorte deles, servidas por bons “gauleiteres“ e não melhores “quislinges“.

 Dizer-se o contrário e vociferar-se pela retoma económica europeia (voltar ao antigamente) só é possível por razões de mera metafísica ou duma fé redentora, uma e outra, crenças insustentáveis, simplórias, rançosas e de cheiro insuportável.

No caso que mais terá de interessar-nos, o português, só por delírio dos seus dirigentes políticos é que essa apreguada retoma pode ser imaginada como coisa susceptível de acontecer inclusive – tão longe prosseguem ao arrepio da objectividade mais comezinha – que chegam ao ponto de considerá-la difícil mas indiscutível, evidente, inexorável e, tal a desfaçatez, com data antevista.

Para tal e tanto, tempos idos, começaram por invocar as virtudes excelsas das medidas nacionais adoptadas para, a breve trecho, face à inutilidade dos resultados conseguidos e, de sobremaneira, para poderem sacudir a água do capote, passaram a gritar alto e a bom som que só com uma concertação de medidas financeiras internacionais é que haveria sucesso!

Depois de terem dado Portugal como quase imune às perturbações económicas do imperialismo neoliberal – nunca falam do seu autêntico descalabro – passaram a admitir que os reflexos internacionais dessa crise haveriam de chegar com intensidade reduzida, um evento desprezível para, pouco após, reconhecerem-lhe uma dimensão mais alargada e, por fim concluírem pela recessão económica caseira que – diziam eles – mau grado, ter chegado como surpresa – é, em substancia, um fruto da crise lá de fora. Não contentes por terem destilado tanta hipocrisia e não menos falsidade, passaram a afirmar, que tudo irá ter conserto por intermédio do concurso amigo das medidas financeiras tanto ianques, como europeias ou, até – imaginação não falta – nacionais. Tudo previsto e tudo em vias duma resolução favorável se os portugueses obedecerem, quais caninos, a um tripé da mafia financeira internacional de sua alcunha “troika“.

Com a prosápia mais comum, os chamados dirigentes portugueses reafirmam – e disso estão certos – que se houver um comportamento político nacional, dócil e submisso, ou seja, se os portugueses aceitarem, de cabeça baixa, fazer tudo quanto mandarem os novos invasores do País – a tal “troika” vinda às ordens do novo reich – então, o fim das dificuldades está anunciado.

Por nenhuma razão possível é um juízo susceptível de aceitar-se antes, porém, tem de proclamar-se como uma atitude política de manifesta indignidade.  Mais grave, muito mais grave, essa política dita nacional, é uma vergonha nacional, recebe o colaboracionismo repelento que é dado pela presença parlamentar duns tantos, a si mesmos chamdos de esquerda mas nada mais que esquerdalhistas. Enfim, pactos políticos vergonhosos já não são novidade ! O “colaboracionismo“ deixou raizes!

A economia de mercado, baseada no sistema da troca não regulamentada – ou, apenas, sistema de trocas garantido, como os novos gurus da economia neoliberal estão a exigir – já não satisfaz à voracidade das instituições financeiras internacionais, tão-pouco, a das empresas multinacionais. As facilidades já obtidas não bastam à gula das conveniências económicas, quantas menos limpidas – de derrota em derrota até á derrota final – pelo que os possidentes passaram a reclamar o afastamento completo do poder competitivo do capital estatal a que – novidade já em marcha – dever-se-á acrescentar a redução ao minimo seja da mão de obra ao serviço seja, também, da sua remuneração.

No dia 21 de Agosto de 1637, em Évora,  há 375 anos – que comparação – a população, face aos aumentos financeiros impostos, disse não e atacou. Foi a Revolução do Manuelinho. Por todo o País a revolta teve a continuidade possível, fez mossa ao poder instituido mas terminou às mãos da ditadura castelhana. Fosse como fosse resultou  muito bem e a História só pode confirmá-lo.

Três anos após tudo mudou. Aqui mas não só!

Em Évora, nesse 1637, com a assinatura do Manuelinho, publicou-se:

                Senhor, vosso Portugal

                De vossos pais estimado

                Hoje, em miséria fatal,

                está pobre e lastimoso

                e o governo rigoroso

                que tanto o tem perseguido,

                lhe nega, sendo ofendido,

                o alivio de ser queixoso.  

           Quem, português, agora, quererá subescrevê-lo?

                                                                                Lisboa, 20 de Agosto de 2012

                                                                                             Carlos Leça da Veiga

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