
Quando, manhã cedo, olhamos as notícias para organizarmos este editorial, não raro somos assaltados pelo desânimo – nada merece ser destacado. Hoje é um desses dias. Em todo o caso, algumas palavras do presidente da República do Equador, Rafael Corrêa, justificam uma reflexão. Segundo ele, «a Grã-Bretanha estará cometendo suicídio diplomático se tentar entrar na embaixada equatoriana em Londres para prender o criador do WikiLeaks, Julian Assange».
Ora isto só pode ser levado à conta de desespero, pois não faz qualquer sentido. A Grã-Bretanha cometer suicídio político por invadir a embaixada do Equador? Fá-lo-á sem problemas. É, como alguém dizia, uma meretriz decrépita, mas quando está ao serviço dos Estados Unidos tem a força do patrão a apoiá-la. Quando Washington estalar os dedos, a velha putéfia vai a correr obedecer ao dono. Imaginando ser ainda a grande potência que foi no século XIX, quando, apoiada na superioridade da sua força naval, dominava o mundo.
Antes, fora a França a disputar-lhe a hegemonia. E, andando mais para trás no tempo, Espanha. Ainda sem existência de jure, mas concentrando em Madrid um poderoso centro de decisão. Um império onde o sol nunca se punha. Mas onde havia nuvens. Faz hoje 375 anos que eclodiu em Évora a chamada “Revolta do Manuelinho”, também conhecida por as “Alterações de Évora”.
Portugal e a Catalunha eram alvo de um projecto de Olivares segundo o qual seriam incorporado na coroa de Castela. Porque formalmente conservávamos a independência – o rei era o mesmo mas os reinos eram distintos. Na prática, estávamos submetidos a um rei estrangeiro, governados por estrangeiros e por portugueses traidores. Salvaguardadas as devidas distâncias e circunstâncias, uma situação semelhante à que hoje vivemos.
Mas deste tema se encarregará o Carlos Leça da Veiga em artigo que será editado às 21 horas.
Esta é uma das memórias que querem apagar – a da luta pela independência nacional. Esta gente que está por São Bento, ao serviço de quem lhes paga, rapazes e raparigas estúpidos e corruptos, negociaram com o Vaticano a extinção de feriados que celebram a luta pela independência nacional e a proclamação da República, a troco de qualquer feriado relacionado com o corpo de Deus e um outro – qualquer, coisas sem sentido para quem não for católico (e para quem for, o conceito de «corpo de Deus» deve criar uma grande confusão anatómica…).
Só que a esta gente desprezível já não se usa chamar «traidores». Agora são designados por «pragmáticos».
