“A ViIDA DOS SONS”: deseja-se menos cinzenta e mais multicolor (VII) – 1 – por Álvaro José Ferreira

1974

A edição do programa “A Vida dos Sons” relativa ao ano de 1974 teve, também, o triste condão de pecar por defeito em matéria cultural.

Tivemos:

 1. Transmissão de alguns fragmentos da versão instrumental/jazzística de “Grândola, Vila Morena”, integrante do álbum “The Ballad of the Fallen” (1982), de Charlie Haden & Carla Bley [>> YouTube], em fundo ao texto em que se tratou das operações militares do 25 de Abril de 1974, com declarações do seu organizador, Otelo Saraiva de Carvalho (dadas à Antena 1, em 2008);

2. Menção da publicação do livro “Portugal e o Futuro”, do general António de Spínola, e subsequente transmissão de um excerto da entrevista concedida à Antena 1 pelo general Almeida Bruno, em 2004;

3. Transmissão da gravação (aparentemente da emissão em onda média do programa “Limite”, da Rádio Renascença) com o jornalista e poeta Leite de Vasconcelos a dizer a primeira quadra de “Grândola, Vila Morena”, de José Afonso, seguida de um breve trecho da canção propriamente dita, que funcionou como senha (a segunda) para o arranque das operações militares [“Grândola, Vila Morena” >> YouTube] [>> YouTube] [>> YouTube];

4. Transmissão dos primeiros compassos da marcha militar inglesa “Life on the Ocean Wave”, composta por Henry Russell (1838) e interpretada pela H.M. Royal Marines Bands [>> YouTube], que foi adoptada como hino do MFA (Movimento das Forças Armadas) [>> YouTube], em introdução à transmissão do comunicado lido por Joaquim Furtado aos microfones do Rádio Clube Português, na madrugada de 25 de Abril [>> YouTube]; tal como no ponto anterior, não foi identificada a voz do locutor, o que representa, no mínimo, uma aviltante desconsideração pelas pessoas que, corajosamente, deram voz ao movimento, mesmo não sabendo qual viria a ser o seu desfecho;

5. Transmissão do quadro “Zé Povinho”, da revista “Até Parece Mentira”, levada à cena no Teatro Maria Vitória, em 1974, com Henrique Santana entoando uma canção satírica à PIDE, com música de fados bem conhecidos: “Fado Marialva” (Jaime Mendes), “Biografia do Fado” (Frederico de Brito) e “Canoas do Tejo” (Frederico de Brito);

6. Transmissão de um excerto da canção “É o que me interessa”, pelo cantor Lenine [>>YouTube] [ao vivo no programa “Radiola”, da TV Cultura >> YouTube], antes de se falar da ditadura militar brasileira e do ataque impiedoso e sangrento do exército a um grupo de cerca de 70 estudantes, ligados ao Partido Comunista brasileiro, radicados junto do rio Araguaia, na Amazónia [>> YouTube]; transmissão de um depoimento de Romualdo Campos, professor da Universidade de Goiás, falando da guerrilha de Araguaia;

7. Transmissão de um excerto do “Himno a la Unidad Sandinista”, de Carlos Mejía Godoy [>> YouTube], antes de ser abordado o ataque desencadeado por treze guerrilheiros da Frente Sandinista de Libertação Nacional à residência do ministro nicaraguense da Agricultura, do governo do ditador Anastasio Somoza; este último será apeado do poder em 1979, vindo a ser assassinado, a 17 de Setembro de 1980, na capital do Paraguai, Assunção [>> YouTube];

 

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