EM COMBATE – 160 – por José Brandão

À BOLEIA para ENTREVISTAR MERCENÁRIOS

Antes de partir da Beira para as matas de Cabo Delgado, ataviei uma entrevista com uns mercenários americanos que estão em Salisbury ao serviço do Iam Smit. Pertenceram à tropa especial que combate nas selvas do Vietname. Esse encontro foi-me facultado por dois pilotos de caças da Força Aérea Rodesiana que estacionavam na Base Aérea 10, da Beira, com vista ao reforço das tropas portuguesas que pretendiam evitar o desembarque das tropas inglesas embarcadas nos navios de guerra que pairavam ao largo do porto da Beira, durante a “guerra do petróleo”.

Cumpridos os trinta e um dias de missões entre Macomia, Chai, margens do rio Messalo e Serra do Mapé, regresso a Porto Amélia, onde o pessoal da companhia esperava uns dias pelo transporte em aviões Nordatlas, até à base da Beira. Mantinha a ideia da entrevista com os ditos mercenários, condecorados na guerra do Vietname, sobre a qual preparava um artigo para um jornal a publicar na cidade da Beira, porque era uma novidade em termos de combatentes estrangeiros pela causa Rodesiana.

Só que o tempo me é escasso e mais de dois dias em Porto Amélia pode mandar o meu plano às favas. E não há previsões da chegada de qualquer avião que possa transportar a minha tropa. Para animar o pessoal da companhia, pus em prática os meus conhecimentos de “cozinheiro” adquiridos no tempo em que fui escuteiro, pedi autorização para levar um jipe até à doca de Porto Amélia, onde comprei uma boa quantidade de peixe e preparei uma saborosa caldeirada. Toda a gente tirou a barriga de misérias, incluindo os senhores oficiais. Aproveitando o repasto, pedi ao comandante da companhia a necessária autorização para tentar arranjar boleia nos aviões que passavam pelo aeroporto local. A minha pretensão foi bem aceite e recebi a respectiva guia de marcha para viajar por minha conta e risco.

No percurso a baixa altitude, vi alguns acampamentos dos guerrilheiros, antes de aterrar em Mocimboa do Rovuma. Dali fomos para Nangade, onde descarregaram mais umas tantas caixas de munições, outras com latas de cerveja 2M e poucas rações de combate. Enquanto a tripulação do Dakota fazia o seu trabalho, aterrou um avião T6, que me iluminou da escuridão que aquele capitão de cabelos grisalhos trouxe aos meus objectivos.

Estando o sol a querer banhar-se lá para os lados do lago Nangade, tinha ali outra alternativa. Nem mais nem menos do que o tenente-piloto Malaquias de Oliveira, meu companheiro na Base Aérea 1, de Sintra, uns anos atrás. Falou com um alferes da Companhia de Cavalaria…. Para reabastecerem o avião, e lá estiveram dois soldados a dar à bomba para transferir o combustível do bidão até ao depósito da pequena aeronave. Em poucos minutos já voávamos para sul a caminho de Nampula. Não fora a barulheira do potente motor, poderíamos ter falado dos tempos em que os aviões de treino da Granja do Marques, serviam para lançar cartas às namoradas que o pessoal tinha espalhadas nas terras de Mem-Martins, Pêro Pinheiro ou mesmo nas Mercês. Com a pista de Nampula bem iluminada, a aterragem foi perfeita. Passei a noite na messe, sofrendo os efeitos do calor que se fazia sentir na região.

De manhãzinha, avanço para a pista de Nampula, sempre convicto de que algum avião seguiria para a Beira. Já o sol crestava e obrigava a serenar a sede no bar do aeródromo, quando chegou um avião Nordatlas, para onde me dirigi com outros militares e alguns civis. Falando com o tenente-piloto comandante da aeronave, autorizou o embarque, passando por Nacala. Aterrou em Nacala, fazendo uma aterragem quase a pique, como o faziam nas pistas da zona de guerra, evitando assim serem perfurados pelas balas dos guerrilheiros que se instalavam nas proximidades da zona de aterragem. O embate do trem de aterragem foi violento e não fora a largura e extensão da pista, algo de grave poderia ter acontecido. Rodaram até junto do hangar, onde passaram uma vistoria ao trem. Eu nem queria acreditar no que via: as molas do lado direito do trem da frente estavam abatidas! E agora, Coelho?

Com tantos pilotos de táxis aéreos a trabalhar para os comerciantes monhés, depositei neles a minha esperança do desenrasca para chegar a Salisbury, capital da Rodésia do Sul. A meio da manhã, tomei boleia no Cessna do piloto Palmeiras, que faz estas viagens todos os dias. Homem desenrascado, transportava duas grandes malas do comerciante paquistanês que caminhava na sua frente, quando me viu e aceitou o pedido de boleia. Embarquei rapidamente naquele pássaro habituado aos climas tropicais.

Já estávamos em território do primeiro-ministro Iam Smith, sem vontade de sermos incomodados pelos seus guardas. Acidentalmente, e por conveniência minha, os ventos do tufão tanto abanaram a carcaça do avião, que o piloto perdeu o azimute e fomos aterrar numa pequena pista periférica à povoação do interior da Rodésia, muito perto de Bindura, a pouco mais de 50 quilómetros de Salisbury. Há que tomar alguns cuidados, enquanto o piloto entra em contacto com a torre de Lourenço Marques e tenta corrigir a rota para o regresso, porque o combustível do Cessna não permite grandes desvios e o meu amigo Palmeiras, que conheço desde quando era aluno em Sintra, está bastante nervoso.

Agora que o Palmeiras já tem o azimute para seguir até Inhambane, eu vou continuar o meu caminho para Salisbury onde me esperam dois ou três gringos americanos, mercenários e ex-combatentes na guerra do Vietname, com quem marquei uma entrevista, bastante importante para a minha pesquisa sobre a mentalidade dos combatentes activos. Sei que é uma causa perigosa, porque estes homens, ao que me foi dito, vendem a estabilidade dos dólares por uma oportunidade de confronto para matar legalmente!

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