BELCANTO – Peter Pears – por Carla Romualdo e Carlos Loures

A carreira de Sir Peter Pears (Inglaterra, 1910-1986), o reputado tenor britânico, começou em 1936, quando integrava os BBC Singers, o grupo coral da BBC que se mantém em actividade desde 1924. Foi aí que conheceu o compositor Benjamin Britten, de quem seria companheiro até ao fim da vida, e cuja influência marcará a sua carreira.

Ambos deixaram Inglaterra de partida para os EUA em 1939, nas vésperas da eclosão da II Guerra Mundial, e é nos EUA que Britten começa a compor Seven Sonnets of Michelangelo, ciclo de canções criadas para Pears. Regressaram a Inglaterra em 1942, e Pears prossegue a sua carreira interpretando várias obras compostas por Britten, com destaque para a ópera Peter Grimes, que viria a ser uma das mais famosas e populares óperas britânicas do século XX.

As críticas a Pears estiveram longe da unanimidade, mas se havia quem lhe apontasse um timbre não particularmente bonito, e algumas limitações técnicas, muitos lhe reconheceram o fraseado elegante, a inteligência musical e a grande agilidade vocal. É sobretudo reconhecido como um notável intérprete de lieder e, em particular, de Schubert.

Exemplo do artista ignorado e incompreendido pelos contemporâneos mas cujo génio é reconhecido após a sua morte, Franz Schubert, um dos grandes compositores oitocentistas, escreveu Die schöne Müllerin (A Bela Moleira), ciclo de canções com poemas de Wilhelm Müller, em 1825, durante um período de doença. Desse ciclo vamos ouvir Das Wandern, interpretada por Peter Pears com o compositor Benjamin Britten ao piano.

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=eqgvp751if4

13/09

Belcanto – Frederica von Stade – por Carla Romualdo e Carlos Loures

Frederica von Stade, mezzo-soprano norte-americana (nasceu na Nova Jérsia, em 1945), teve um início de carreira auspicioso, conseguindo, em 1970, um contrato com o Metropolitan de Nova Iorque durante as audições com jovens cantores líricos. Estreia-se em 1971 com um dos seus mais memoráveis papéis, o de Cherubino em As Bodas de Fígaro, de Mozart, a par com outra estreante (no papel de Condessa): Kiri Te Kanawa.

Grande especialista de bel canto, interpretou brilhantemente La Cenerentola e Il Barbiere de Siviglia, de Rossini, assim como La Sonnambula, de Bellini, mas tem sido igualmente uma notável intérprete do repertório francês, com destaque para as obras de Berlioz, Debussy e Ravel.

Vários compositores contemporâneos escreveram papéis especificamente para ela, como foi o caso da personagem “Tina”, de Dallas Opera, do compositor americano Dominick Argento, o mesmo tendo acontecido em The Aspern Papers, do mesmo autor, Dangerous Liaisons, de Conrad Susa, e Dead Man Walking, de Jake Heggie. Com o compositor Richard Danielpour, von Stade desenvolveu Elegies, porventura um dos trabalhos com maior significado pessoal, já que o compositor teve como base as cartas que o pai de Frederica, Charles von Stade, escreveu à família durante a sua participação na II Guerra Mundial. O soldado morreria dois meses antes do nascimento da filha.

Recebeu já múltiplas distinções no seu país, assim como a Ordem das Artes e Letras do governo francês.

Das Bodas de Fígaro (Le nozze di Figaro), de W. A. Mozart, ópera buffa composta em 1786, Frederica Von Stade canta uma das mais famosas passagens desta obra, Voi Che Sapete, ária do pajem Cherubino.

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=o7y3_SZqNi4

20/09

Belcanto – Alfredo Kraus – por Carla Romualdo e Carlos Loures

Alfredo Kraus, um dos grandes tenores do século XX, nasceu em Las Palmas de Gran Canaria, em 1927, e morreu em Madrid, em 1999. Influenciado pelo seu irmão, Francisco Kraus, barítono, começou cedo os seus estudos musicais e estreou-se em palco como intérprete de zarzuela, esse género lírico-dramático espanhol, em que alternam partes instrumentais, vocais e dança, e que deve ao seu nome ao Palacio de la Zarzuela, onde se encenaram as primeiras representações do género.

A estreia operática dá-se em 1956, no Cairo, no papel do Duque, do Rigoletto. Dois anos depois, Kraus interpretou o Alfredo, de La Traviata, em Lisboa, no Teatro Nacional S. Carlos, contracenando com Maria Callas.

Grande intérprete do bel canto, Kraus celebrizou-se ao longo da sua carreira em papéis como o de Werther, da ópera homónima de Massenet, o Fausto, de Gounod, Arturo, de I Puritani, de Bellini, ou o Nemorini, de L’Elisir d’ Amore, de Donizetti.

Exemplo de longevidade na carreira, graças a uma notável técnica e a uma cuidadosa gestão do repertório, Alfredo Kraus cantou regularmente até aos setenta anos. Reconhecido pela sua integridade, profissionalismo, e respeito pelos colegas e pelo seu ofício, Kraus tornou-se um dos mais celebrados tenores do século XX, conquistando a admiração de várias gerações de amantes da ópera. Em 1991 recebeu o prémio Príncipe das Astúrias, em conjunto com outros compatriotas famosas do canto lírico, como Placido Domingo e Monserrat Caballé.

Na sua longa carreira, Kraus nunca deixou de interpretar a zarzuela, género que apreciava particularmente. Uma das árias mais conhecidas do seu repertório de zarzuela, é La Dolorosa, de José Serrano, um dos mais famosos autores deste género, com mais de 50 títulos. Estreada em Valência, em 1930, La Dolorosa descreve os costumes aragoneses de inícios do século XX. Numa excelente interpretação de Alfredo Kraus, vamos ouvir La Roca Fría del Calvario, ária de Rafael, o protagonista, um pintor atormentado por um desgosto amoroso, que se refugia num convento aragonês.

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=E7Xv_WkHiGE

30/09

Belcanto – Coro do Teatro alla Scala – por Carla Romualdo e Carlos Loures

Va Pensiero, o famoso “coro dos escravos hebreus” da ópera Nabucco, de Giuseppe Verdi, está de tal forma enraizado na cultura popular que dificilmente se encontrará quem não o conheça e não o tenha trauteado em algum momento, ainda que possa desconhecer o seu autor e o contexto no qual nasceu.

Nabucco foi a terceira ópera de Verdi e diz a lenda que poderia nunca ter existido. Enquanto este compunha a sua segunda ópera, Un Giorno di Regno, a mulher de Verdi faleceu. O compositor conseguiu terminar a obra com grande sacrifício, mas esta acabaria por revelar-se um enorme fracasso. Desesperado, Verdi decidiu abandonar a composição, e só a custo Bartolomeo Merelli, empresário do Teatro alla Scala, de Milão, conseguiu convencê-lo a compor uma nova obra, Nabucco, a partir de um libreto de Temistocle Solera. Diz a lenda que foram os versos de Va pensiero, inspirados no Salmo 137,que ajudaram Verdi a recuperar a fé na sua música e que o animaram a escrever Nabucco, a qual, ao contrário da sua predecessora, foi um enorme êxito desde a sua estreia.

A acção de Nabucco acompanha a luta dos hebreus, derrotados frente ao rei Nabucodonosor, da Babilónia (que destruiu Jerusalém e o seu Templo), e condenados a um período de cativeiro e exílio.

Escrita e estreada durante a ocupação de Itália (os austríacos controlavam o norte, os Bourbons governavam Napóles, e a Igreja controlava Roma e o Estados papais), Nabucco estabelecia uma analogia clara entre o desejo de liberdade do povo hebreu e o sentimento patriótico dos italianos. A obra tornou-se rapidamente um instrumento político, aproveitado pelo Risorgimento, o movimento político que aspirava à unificação do Estado italiano.

Com versos como “Oh mia patria si bella e perduta!” (Oh, minha pátria, tão bela e perdida!), Va pensiero ganhou rapidamente a dimensão de um hino. Hoje, perdido já esse contexto de época, continua a ser a bela expressão musical de uma aspiração que tem movido grandes conjuntos ao longo da história da Humanidade: a da liberdade e autodeterminação.

Com o Coro e Orquestra do Teatro alla Scala de Milão, dirigidos pelo maestro Riccardo Muti, encerramos a primeira série do “Bel Canto”, a rubrica na qual, ao longo dos últimos meses, procurámos apresentar-vos alguns dos melhores cantores de sempre. Retomaremos esta rubrica futuramente e nessa segunda série comprometemo-nos a trazer os grandes nomes do canto lírico que ainda não passaram por esta rubrica e sem a qual ela ficará incompleta. Esperamos que tenham gostado e que regressem connosco para a segunda série.

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=vDrzP4OFMCA

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