O COMBATE MAIOR E MAIS IMPERIOSO, pelo Padre Mário de Oliveira

Saibam que o Deus que as religiões invocam é sempre um ídolo ao serviço dos mais obscuros interesses, os das minorias dos privilégios. Talvez por isso o combate maior e mais imperioso a ser feito durante todos os dias da nossa vida, é o combate ideológico /teológico. Os deuses existem e estão em combate aberto e permanente contra Deus e contra os seres humanos. Trata-se de um combate em que Deus, no decurso da História, sempre sai a perder e os deuses sempre saem a ganhar. Porque só os deuses que são ídolos, é que são omnipotentes, omniscientes e omnipresentes. Recorrem a todo o tipo de meios para obterem os seus fins. Não sabem nada de escrúpulos, nem de ética, nem de moral, nem de justiça, nem de humanidade, nem de misericórdia. Apenas de vitórias. De sucessos. Esmagam. Assassinam. Caluniam. Mentem. Corrompem. São a Inteligência demente e demoníaca em acção na História.

Até hoje, têm sido eles que dirigem o mundo, que fazem o mundo à sua imagem e semelhança. Quem sonha dominar, vencer, triunfar, enriquecer, esmagar, afirmar-se sobre os demais, eliminar os demais, tornar-se o maior e o mais temido é por eles que vai, é a eles que presta culto, é a eles que se dirige, é com eles que conta. Por isso é que a Idolatria é o Grande Pecado do Mundo. Para não dizer, o único Pecado do Mundo. O único Pecado que nos mata, como seres humanos. Hoje, rodeia-nos por todos os lados. Nascemos e crescemos rodeados de Idolatria, a mais perversa de todas, a do Senhor Deus Dinheiro. E, se não entramos por ela, como a generalidade dos demais, somos tomados por parvos, por tolos, por anormais. Ser idólatra hoje é o que está a dar. Ou adoramos os deuses, os ídolos, ou ficamos de fora da roda do sucesso. Na simples condição de seres humanos, pobres e sem poder por opção, por isso, não idólatras por opção.

São os deuses que hoje formatam os seres humanos. Nas Famílias. Nas Igrejas. Nas Religiões. Nas Escolas. Nas Empresas. Nos grandes media. Nunca como hoje a Idolatria esteve tão agressiva, tão global e tão poderosamente sedutora. Os deuses estão em toda a parte. Deus morreu, já o disse há anos um dos grandes Mestres da Suspeita. Só não disse e deveria ter dito, porque assim é que a sua afirmação teria sido fecundamente maiêutica, que foram os deuses, os ídolos, que mataram Deus. Disse que fomos nós, os seres humanos, que O matamos. E isso é mentira, a Grande Mentira. Os seres humanos, nunca conseguiremos matar Deus, porque a Deus nunca ninguém O viu. Nem verá!

O que nós, seres humanos, temos feito – e essa tem sido porventura a nossa mais demente especialidade – é corrermos insensatamente atrás dos deuses, dos ídolos. É adorarmos os deuses, os ídolos. Temos sido quase compulsivamente idólatras. Temos renunciado a sermos seres humanos, simplesmente. Ora, nunca os seres humanos se degradam tanto, como quando seguem os deuses, os ídolos, se tornam idólatras, adoradores dos deuses. Não! Não matamos Deus. São os deuses que matam Deus, para fazerem dos seres humanos seus escravos, na ilusão de que assim se tornam super-homens.

Na nossa cegueira e na nossa inteligência demente, nem sequer vemos que somos bestas, escravos dos deuses, por isso, Caim uns para os outros, fratricidas, opressores, monstros, nas mais diversas categorias e funções que os deuses liberalmente distribuem por quem mais e melhor os serve. Quando mais subimos no Poder, no Privilégio, mais super-homens nos julgamos. E somos monstros. Somos tudo, menos seres humanos. Os mais perigosos de todos são, evidentemente, os idólatras de colarinho branco, os que vestem de executivos das nações, os que ocupam cargos e funções de grande Poder, as hierarquias religiosas e sagradas, os grandes ricos. Perigosos, e muito, são também os lacaios que todos os dias os servem, sempre roídos de inveja das mordomias e dos privilégios que eles possuem.

Todos quantos estão a servir o Poder, são idólatras. Nenhum deles se reconhece como tal, porque a Idolatria disfarça-se de religião, numa sociedade sacralizada, ou de serviço à causa pública, numa sociedade acentuadamente laica. E a religião sempre se fez passar, inclusive numa sociedade laica, pela dimensão mais nobre dos seres humanos. Nunca ouviram nenhum homem do Poder, laico que seja, dizer que a religião faz parte do Perverso, é o Perverso. Sempre nos fazem crer que é o mais sublime do Humano. Na verdade, é a perdição do Humano. Porque é Idolatria. Por isso, ou matamos os deuses, ou tornamo-nos seus escravos.

(In O Novo Livro do Apocalipse ou da Revelação, Areias Vivas 2009)

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