Conclusão
Portugueses e brasileiros desconhecem, ou conhecem por razões secundárias, um país que esteve ligado às suas histórias e que, mais do que outros que a tal se candidatam, poderia fazer parte da CPLP. Portugal é também vítima de um certo desconhecimento por parte da comunidade internacional, embora pareça ultrapassado o tempo em que éramos invariavelmente dados como parte do estado espanhol. No entanto, há muitas razões para que nos debrucemos sobre a história uruguaia e sobre a sua realidade.
O futebol uruguaio é magnífico, Maxi Pereira e Álvaro Pereira, tal como Forlán, são grandes jogadores, mas há outros motivos de interesse no relativamente pequeno país – apesar de tudo, tem quase o dobro da área de Portugal (embora a sua população seja de cerca de um terço da nossa). Para além da lucidez ímpar de Eduardo Galeano, recordo a leitura de El astillero, de Juan Carlos Onetti, romance que serviu de base ao filme realizado por David Lipszyc.
Mas também podíamos aprender com os uruguaios a forma como vivem actualmente a democracia. José Mujica, o presidente da República, antigo guerrilheiro tupamaro, não é como outros presidentes que aproveitam as mordomias do cargo e fazem chorudos negócios protegidos pela condição de supremos magistrados da República. Dos seus honorários que ascendem a cerca de dez mil euros, fica com mil e faz doação do restante a ONGs. Numa reportagem do El Mundo, de Barcelona, é considerado o presidente mais pobre do mundo. Não tem dívidas, não tem conta bancária. O José Mujica que militou na guerrilha tupamaro, não teve de trair as suas ideias para assumir o cargo presidencial.
Aqui, em Portugal (bem como no Brasil), vemos ex-revolucionários a assumir «posições realistas» quando ascendem a cargos oficiais. E considera-se posição realista à pose institucional que comporta renegar aquilo em que se acreditou, quando não mesmo a levar o “realismo” a aceitar esquemas obscuros e até a beneficiar amplamente desses negócios que germinam na face oculta do sistema democrático.
Considera-se de esquerda, mas não pauta as suas opiniões por cartilhas ideológicas. Diz: «Continuo a ser socialista porque sou inimigo da exploração do homem pelo homem. Isso não implica defender um Estado grande e um funcionalismo público inflacionado. Seria um desastre”.
O gigante Brasil e o pequeno Portugal poderiam aprender algo com um Uruguai que, como diz Galeano, os uruguaios têm a convicção de que existe.
Mas ouçamos Joé Mujica dizer como, apesar de admirar o socialismo, não o escolheria como caminho.
