
Ajudando a desmembrar uma casa de gente de cultura e activista, acabei por “herdar” o Catálogo da Exposição Surrealista, em Lisboa, Janeiro de 1949. Porque considero os textos muito interessantes, decidi aqui os partilhar. Terei que dividir por vários dias, cinco, a um ritmo de um por semana. Não me considero com aptidões para acrescentar mais coisas, com análises literárias, fica o desafio a quem achar para isso poder contribuir.
Com introdução de José Augusto França, posfácio de António Pedro, o catálogo apresenta os artistas com o nome de cada um no alto da folha e dentro de uma caixa a explicação do “porquê” de serem surrealistas, seguindo-se os títulos das obras.
Passarei a incluir os textos. Para além dos que irão ser citados, expôs ainda António Dacosta (ausente em Paris).
Grupo Surrealista de Lisboa, Portugal 1949. Na foto, da esquerda para a direita: Henrique Risques Pereira, Mário Henrique Leiria, António Maria Lisboa, Pedro Oom, Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Carlos Eurico da Costa e Fernando Alves dos Santos. I Exposição dos Surrealistas, Junho/Julho,
“Os filósofos têm-se limitado a interpretar o mundo de diferentes maneiras. Aqui, porém, trata-se de o transformar”
PORQUÊ ?
Liberdade, cor do Homem, ANDRÉ BRETON ◊ Toda a felicidade do homem reside na sua imaginação. MARQUÊS DE SADE ◊ É preciso saber que a guerra é universal, que a justiça é uma luta e que tudo chega à existência pela discórdia e pela necessidade. HERACLITO ◊ As noções de causa e de efeito concentram-se e entrelaçam-se na noção de interdependência universal, no seio da qual a causa e o efeito trocam sem cessar as suas posições relativas. ENGELS ◊ Tudo leva a crer que existe um certo ponto de espírito do qual a Vida e a Morte, o Real e o Imaginário, o Passado e o Futuro, o Comunicável e o Incomunicável, o Alto e o Baixo, deixam de ser contraditoriamente apercebidos. BRETON ◊ O Bem e o mal são uma e a mesma coisa. HERACLITO ◊ Nada conhecerás se não conheceste tudo. SADE ◊ Mesmo no inconsciente, todo o pensamento está ligado ao seu contrário. FREUD ◊ As uniões são coisas inteiras e não inteiras, concórdia e discórdia, harmonia e desarmonia: de todas as coisas o Um, e do Um todas as coisas. HERACLITO ◊ … a destruição da lógica até ao absurdo, o uso do absurdo até à razão… PAUL ELUARD 1938 ◊ A causalidade não pode ser compreendida senão em ligação com a categoria do acaso objectivo, forma de manifestação da necessidade. ENGELS ◊ Quem se destrói não se cansa. ◊ Se não esperares o inesperado, não o encontrarás, que ele é penoso e difícil de encontrar. HERACLITO ◊ Hábito e Surpresa são as duas grandes teses da dialéctica do comportamento, e dado que esta atitude do desejo é sobretudo uma preocupação social, é em termos de linguagem política que geralmente se traduzem: são a atitude conformista e a revolucionária. NICOLAS CALAS ◊ Cidadãos, ainda um esforço, se quereis ser republicanos! SADE ◊ A Poesia não mais ritmará a acção, mas caminhará à sua frente. RIMBAUD◊ O poeta do futuro sobrepujará a ideia deprimente do divórcio irreparável da acção e do sonho. BRETON ◊ Os homens, no seu sono, trabalham e colaboram nos acontecimentos do Universo. HERACLITO ◊ O Surrealismo, que é um instrumento do conhecimento e, por isso mesmo, um instrumento tanto de conquista como de defesa, trabalha para trazer à luz a consciência profunda do homem, para reduzir as diferenças que existem entre os homens. PAUL ELUARD 1938 ◊ A linguagem não serve ao homem somente para exprimir qualquer coisa, mas também serve para se exprimir a si próprio. VON DEN GABELENTZ ◊ … esta Natureza ininteligível, ousemos enfim ultrajá-la para melhor conhecer a arte de a gozar. SADE ◊ A livre escolha destes temas e a não restrição absoluta no que diz respeito ao campo da sua exploração, constituem para o artista um bem que ele tem o direito de reivindicar como inalienável. BRETON E DIEGO RIVERA ◊ Só me dirijo àqueles que são capazes de me entender. SADE