Um Café na Internet
A minha tia Cândida já resvala no morrendo e não se importa. De fome voluntária. Só bebe malgas de café e, de comer, só uma ou outra fatia de pão de ló.
O meu primo chora muito. A minha prima nem por isso. O meu tio Pedro só grita e quer obrigar a mulher a comer. Ela treme mas fecha a boca. Depois ele vai-se embora e bate a porta.
Nem sempre foi grisalha a minha tia Cândida. A minha mãe disse-me que ela foi moça esbelta com muito rapaz desasado à sua volta. Aos vinte anos a sua grande paixão era o Manuel da CP. Só pensava em casar com ele.
O meu tio Pedro está sempre a gritar. Grita que o Salazar salvou a Pátria. Grita que a Alemanha vai ganhar a guerra. Grita para os operários que tomem juizinho.
Comprou todos os discos da Amália e toca-os na fábrica de manhã até à noite.
Quando era novo, alta noite o meu tio Pedro escalou a varanda e forçou a minha tia Cândida. Ninguém deu por nada. O meu tio Pedro é que foi gabar-se do acontecido. Gritava o nome do Manuel da CP. Gritava que no dote da noiva já faltavam três vinténs.
A minha avó apanhou um resto do zum-zum. A minha avó chorou. A minha avó falou e chorou. A minha tia Cândida não queria mas lá se deixou casar. Na igreja.
Vestido de noiva. Flor de laranja e tudo. A minha mãe disse-me que nunca viu noiva mais triste. Uma semana depois do casamento a minha tia Cândida bebeu veneno. Lavagem ao estômago e salvaram-na.
Anos depois, muitos, a minha prima chamou a mãe de puta. E chamou porque o meu tio Pedro foi dizer à filha que um dia, já ela e o irmão tinham nascido, apanhara a minha tia Cândida na cama com o Manuel da CP.
Na família todos dizem que o meu tio Pedro afinal é um homem bom. Reparou o mal que fez ao escalar a varanda e até perdoou o deslize da mulher.
A minha tia Cândida come pouco e treme muito. A minha tia Cândida já resvala no morrendo e não se importa.
In MATA-CÃES
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