É hora de deixar de andar a mascar pastilha elástica enquanto se anda de rede de capoeira como protecção contra a crise em Espanha – I
Por Edward Hugh
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Edward Hugh é economista especialista em teoria do crescimento e da produtividade, em demografia e na crise europeia da dívida. A ele e ao Economonitor, os nossos agradecimentos e saudações muito cordiais.
Cada caminho seguido na crise da zona do euro tem-se assinalado pela negação em toda a sua dimensão dos problemas existentes. Se as autoridades da Espanha tem estado deliberadamente a enganar ou se são cegas, isto faz agora muito pouca diferença. Os bancos necessitam de muito mais capital; o governo vai precisar de ajuda externa, com todas as incertezas do mercado e com todas as consequências que esta situação vai implicar. E o mal-estar em Espanha só vai piorar”.
De acordo com relatórios agora amplamente a circularem na imprensa espanhola (em Espanhol, somente), a UE está a forçar,com enorme pressão, a Espanha para aceitar a ajuda da UE depois da conclusão de uma avaliação externa independente sobre os problemas do sector bancário que deverá ser conduzida por Oliver Wyman e Blackrock. A avaliação tem estado a ser imposta à Espanha pelo BCE e pela Comissão Europeia na sequência de dúvidas quanto à fidelidade dos números publicados pelo banco central para reflectir as perdas prováveis que devem ser suportadas pelo sistema bancário espanhol. Na sequência das revelações feitas nas últimas semanas sobre a extensão das perdas potenciais no Bankia (produto da fusão de vários bancos de poupança e que é hoje uma das maiores instituições financeiras do país em termos de activos[1]) não é difícil entender o porquê desta pressão.
Mas o problema não só levantou a questão de se ter em dúvida a capacidade dos dirigentes políticos e financeiros do país em lidar com uma crise desta magnitude, levantou-se uma vez mais muitas interrogações e dúvidas sobre a adequação dos dados apresentados nas contas anuais da banca comercial. O que trouxe o problema à tona de água e o colocou na praça pública foi a publicação na sexta-feira 4 de Maio do relatório de contas não auditadas de Bankia para 2011 em que o banco-mãe, o BFA, ainda avaliava Bankia, nas suas contas individuais, pelo seu valor contabilístico. Na verdade, nesta altura Bankia estava a negociado em torno de 0.3 do seu valor contabilístico, enquanto as participações em empresas cotadas como por exemplo os hotéis Mapfre, NH, e Indra não foram de modo algum avaliadas totalmente aos valores de mercado. A razão pela qual as contas permaneceram não auditadas foi porque Deloitte, o auditor do banco se recusou a assiná-las enquanto decorria a sua admissão em bolsa .[2]
Na verdade, não só o banco sofreu com a queda dos valores dos seus activos próprios como também está a sentir a clara pressão da descida nos preços das acções, o que afecta o valor das suas explorações comerciais. O índice do país IBEX 35 atingiu o seu nível mais baixo desde Outubro de 2003 nesta semana, e com as participações que alguns descrevem como sendo as “jóias da coroa do banco” a descerem fortemente na bolsa reduzindo fortemente o capital do banco que se esfuma rapidamente. Os activos do Bankia incluem uma participação de 5,4% na conturbada companhia hidroelétrica Iberdrola, que está agora a ser avaliada apenas em 21 mil milhões de Euros, ou seja com uma redução de cerca de 40% face à valorização em 35 mil milhões com que a empresa tinha sido avaliada há apenas um ano atrás. Uma análise mais pormenorizada revela que esta descida só custou ao banco 800 milhões de euros, tornando-se improvável que uma venda forçada dos activos de todas as explorações traria ao banco qualquer coisa como 3 mil milhões de euros segundo as estimativas de alguns. No entanto, o duro Goirigolzarri, o novo Presidente, esforça-se por mostrar uma cara de coragem sobre esta realidade (“contra mal tiempo buena cara”) e ninguém tem dúvidas de sua boa vontade apesar da batalha à frente dele ser enorme. As estimativas em Espanha sugerem que a adicionar aos 4.5 mil milhões de Euros de empréstimos FROB convertidos em capital, o banco possa precisar adicionalmente de mais cinco mil milhões de Euros como injecção de capital, e isto somente para cobrir os novos requisitos de provisões.
(continua)
[1] N. Tradução. Basicamente é constituído por Caja Madrid, Bancaja, Caja Canarias, Caja Ávila, Caixa Laietana, Caja Segovia y Caja Rioja.
[2] Nota de Tradução. Curiosamente na campanha de publicidade para a sua introdução em bolsa , Bankia afirmava-se como sendo “o leader dos novos bancos” . Agora podemos questionar se não havia aqui um aspecto premonitório, e não será ele então o líder, isso sim, dos novos bancos falidos, o maior de todos eles, então. Uma curiosidade, o seu Presidente, Rodrigo Rato, era o director- geral do FMI quando se assistiu ao assalto organizado sobre o património da Argentina. Lamentavelmente escreve-se torto por linhas ainda mais tortas.

