UM ENORME FUROR EM TORNO DA MANIPULAÇÃO SOBRE A LIBOR: ONDE É QUE HÁ AQUI ULTRAJE? por Yves Smith – III

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

(CONCLUSÃO)

O que eu estava a explicar afinal era de que o banco estava a manipular a Libor. Somente não tinha percebido isso na altura.

O que o trader nos disse foi que o banco não pode ser visto a contrair empréstimos a taxas elevadas, e por isso estavam a fazer propostas baixas para o fixing da Libor, como todos os outros. Como é que se poderia fazer isso? Fácil. A British Bankers’ Association, que compila os dados da Libor pede que a informem de uma proposta de taxa mas não havia depois nenhuma verificação se esta era praticada. O trader disse que havia uma aceitação geral que se baixava a taxa de alguns pontos de base diariamente.

De acordo com o trader “todos sabiam” e “toda a agente o fazia também”. Não havia nenhuma implicação de ilegalidade. Afinal, havia 20 a 30 pessoas na sala – desde gestores a economistas, havia equipas estruturadas de vendedores – e mais gente na teleconferência em todo o país…

A principal questão diariamente era como lidar com o agravamento da crise. E as questões levantadas sobre o que nós, uma das equipes de vendas do banco, poderia estar a fazer para ganharmos os nossos altos salários.

Como parte disso, nós tivemos que explicar o que era a “dislocation of Libor from itself”. Como o trader colocou a questão todos sabíamos que não poderíamos contrair empréstimos à taxa Libor, bastava olhar para os valores dos nossos credit default swaps – efectivamente um seguro de sobrevivência para o banco – para ver que…

O que isso significava era que mesmo que a Libor pudesse ter sido, por exemplo 2pc, a taxa real da Libor que o banco estava a pagar era mais, como por exemplo 5pc ou 6pc. Assim, na verdade, precisamos de ter contraído empréstimos de dinheiro à Libor mais 3pc ou 4pc ou seja apenas já no limite da ruptura. Isso é o que estávamos a dizer aos clientes.

Agora estamos a ver alguns sinais nos EUA de uma maior atenção na natureza parasitária do grande capital nos grande media americanos, reconhecendo-se que determinados abusos são parte de uma mais vasta estrutura de comportamentos. Isso pode ser simplesmente uma coincidência de calendário, mas olhe-se para os textos da Bloomberg sobre esta matéria sobretudo para Virginia Postrel:

Deus sabe que nós já tivemos mais do que suficientes escândalos criados sobretudo por Wall Street ao longo dos anos, e a mensagem que os executivos dos bancos anunciam caso após caso é sempre a mesma: “não se preocupe, nós aprendemos a lição, e isto nunca mais se repetir.”…

Dizem-nos repetidamente que quando o sistema de incentivos profundamente perverso de Wall Street conduz a maus resultados, uns a seguir aos outros, ano após ano, dizem-nos que isso nunca acontecerá novamente. Mas acontece. E pode-se adicionar a seguinte actividade à lista: os funcionários dos governos locais, estaduais e maneira contratam as empresas de Wall Street para levantarem milhares de milhões de dólares para os seus municípios de que precisam para construir escolas, hospitais, aeroportos e esgotos e para fornecerem outros serviços essenciais.

Por alguma razão, Wall Street parece não querer aceitar que subornar funcionários do governo — e pagar a cada um deles — para obter acesso ao lucrativo negócio de subscrição de obrigações municipais é completamente ilegal. Wall Street nunca aprendeu esta lição, porque o baixo preço, que acaba por pagar por mau comportamento não constitui absolutamente nenhum valor impeditivo de continuar assim.

Na verdade, o que o cartel dos bancos principais faz uma vez e outra, repetidamente, ano após ano, para conseguir o direito de subscrição da emissão de títulos para financiar as actividades dos governos locais e Central e a forma como o cartel então fixa e distribui entre si as taxas devidas por esta sua actividade, é um microcosmo de um problema muito mais vasto do crescente poder que os sobreviventes da crise financeira em Wall Street têm sobre todos nós.

Mas mesmo se os bancos dos EUA têm estado tão profundamente envolvidos na manipulação de Libor, é muito improvável que nada seja, nem sequer em termos remotos, parecido com a cáustica cobertura da imprensa inglesa. A primeira razão é a de que muitos jornalistas ingleses andaram nas mesmas escolas que os banqueiros de topo e têm relutância em ver os membros da sua classe tratados como bandidos (este é um problema de longa data, ver Kathryn Olmstead’s “Challenging the Secret Government,” que descreve de como e quanto rapidamente os media se distanciaram do jornalismo de investigações depois de Watergate). Isto tem sido exacerbado nalgumas instituições pelas filiações pessoais dos executivos de topo. Michael Thomas tem argumentado que o começo do fim do New York Times ocorreu quando Punch Sulzberger foi nomeado para a Direcção do Museu Metropolitan: “Isto significava que ele iria jantar com as pessoas que com desejava jantar.” “It meant he would be dining with people he should be dining on.”

Por outro lado, parece haver menos identificação entre os jornalistas e os altos quadros das empresas na Inglaterra. Martin Wolf, do Financial Times, ao falar numa conferência sobre jornalismo financeiro na Universidade de Columbia, sublinhou que os jornalistas britânicos não se vêem eles próprios como tendo um papel de armazéns de arrecadações loft, ao contrário dos seus comparsas americanos. Mas disse também que ele (e por extensão outros jornalistas) assumem que os altos executivos e os seus grupos são desonestos. Esse tipo de cepticismo interno parece estar fora das práticas dos jornalistas americanos.

Em segundo lugar as grandes empresas e os altos quadros da função pública e do governo praticam o acesso aos jornais com muita frequência e os jornalistas têm medo de perderem os favores que são distribuídos pelos políticos aos jornalistas amigos ou seja, entrevistas exclusivas e fugas de informação.

Mas acho que o maior culpado é o nosso duopólio político. O Labor Party na Inglaterra realmente representa interesses diferentes dos que os conservadores representam e está disposto a ganhar o poder aos Tories e aos seus aliados de uma forma muito mais persistente do que os nossos Democratas que, em última análise, dependem das mesmas fontes de financiamento que os republicanos. Na Inglaterra, tal como o escândalo New International mostrou, há a possibilidade de uma verdadeira amplificação: as descobertas dos media são ainda fortemente alimentados pelas investigações políticas, o que leva a estimular ainda mais os próprios media. O facto de que alguém que parecia ter uma brutal capacidade de domínio sobre o poder como Rupert Murdoch possa ser deitado abaixo é, sem dúvida, uma saudável mensagem para a imprensa britânica, de que eles têm a influência que na maior parte dos casos não souberam exercer eficazmente. Assim, ironicamente, é um país onde a banca representa uma muito maior percentagem do PIB do que nos Estados Unidos possa também ser aquele onde a má conduta do sistema bancário é finalmente descoberta e onde pelo menos alguns dos criminosos são castigados e cumprem as penas. E isto pode também mostrar que a incapacidade das nossas próprias autoridades em agirem pode significar igualmente a desgraça que tudo isto está ser .

Yves Smith, Massive Furor in UK Over Libor Manipulation; Where’s the Outrage Here? Disponível em Naked capitalism,  Julho de 2012

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