EM COMBATE – 168 – por José Brandão

Depois deste episódio não me recordo da coluna ter parado mais. Parou sim quando chegamos a Diaca, ao fim do dia. A Companhia 1711 ficou aqui colocada, substituíram os militares (kokuanas) que terminaram o seu tempo nesse local. Os restantes militares, da CCS, 1712 e 1710, foram espalhados pelo recinto e aí passaram a noite, uns em cobertos, outros ao tempo ou debaixo de uma árvore, que foi o meu caso. Toca a levantar e arrancar com destino ao Sagal.

Deixamos para trás amigos e companheiros. Após as despedidas habituais retomamos a marcha com destino ao Sagal, tínhamos que vencer uma picada altamente perigosa, era voz corrente dos perigos que ela comportava para os militares em coluna, onde as minas e emboscadas eram permanentes. Neste trajecto havia um local muito perigoso e que tinha fama pela sua negra história relativamente aos portugueses, a curva da morte.

Ultrapassado este obstáculo, felizmente nada de grave aconteceu. Mais uma viagem demorada e com muito calor, cansativa e de muita tensão, que provocou um cansaço enorme e um desejo profundo de chegarmos rapidamente ao nosso destino. Neste local de beleza rara, ficou instalada a Companhia 1712, procedeu-se de igual modo à substituição dos militares ali instalados. Localizado no perímetro do planalto maconde, cuja picada para Diaca tinha uma inclinação muito acentuada.

O quartel estava localizado na antiga serração, com alguma habitação em alvenaria, oferecia condições de habitabilidade razoáveis aos militares. Passado algum tempo, o restante da coluna retomou o seu percurso, sem que antes as despedidas, num até sempre, fossem levadas até ao extremo. Momentos de muita tristeza e dor.

Mais uma vez amigos e companheiros separam-se. Subimos para as viaturas, foi retomada a marcha, seria por volta do meio do dia, tínhamos consciência que era o último percurso a ser alcançado e, até aqui nada de anormal tinha acontecido, atingirmos finalmente o objectivo que nos estava destinado, MUEDA.

Situada no planalto dos Macondes, Cabo Delgado, habitada maioritariamente pela etnia maconde, onde linguisticamente predominavam o “suahíli”, “maconde”, “macua” e o “português”.

Nas nossas cabeças fervilhavam tantas perguntas, todas elas sem resposta, dúvidas eram mais que muitas. As histórias que contavam os que de nós iam partindo, provocavam um misto de desconforto e medo.

Foi assim que partimos em direcção ao imprevisível, mas convictos que venceríamos este último esforço, percorrendo a picada de imensas areias, que provocou o atascamento das viaturas, obrigando a um esforço redobrado daqueles valentes que tiveram que as retirar.

Finalmente chegamos, a meio da tarde. Foi um momento bonito…e histórico. A recepção pelos “kokuanas” foi enorme e efusiva, gritando; viva os chekas, olha os chekinhas, estavam ali os tão desejados militares “chekas” acabados de chegar e prontos para os substituir. A coluna parou fronteiro ao quartel, apeamo-nos das viaturas, sujos e mal cheirosos, ansiosos por banho e beber algo que apagasse o fogo que existia dentro de nós.

Mas nada disso aconteceu nas primeiras horas, antes de tudo, fomos ver as instalações, dormitórios, cozinha e refeitório. Procedeu-se ao transporte e armazenagem dos materiais transportados e só depois é que veio aquilo porque todos ansiávamos, o BANHO. Claro, seguido de uma minissaia fresquinha (?) que pela goela foi emborcada de um só golo. Onde dormimos? Não sei, por aí… responderam.

Quando acordei, levantei-me e dirigi-me à porta da flat, dei por mim a olhar no horizonte e verificar que estávamos em local fortificado que oferecia alguma segurança em combate aberto. Olhei e vi uma trincheira á minha frente, pensei…Em caso de ataque salto lá para dentro, aí estarei mais seguro (?..).

O dia-a-dia dos militares nos quartéis do mato passava-se entre as tarefas de segurança, as operações e a rotina dos longos dias. Excepto nas guarnições sujeitas a grande pressão dos guerrilheiros, os dias cumpriam-se no contacto com as populações, nas permanências no bar, na correspondência com a família, na prática de algum desporto e, por vezes, na caça.

A ideia prevalecente na maioria dos militares era a de que a comissão durava duas vezes 365 dias. A partir da data do embarque, iniciava-se a contagem decrescente até ao regresso. A partir do local onde se encontrava, media-se a distância a que se estava de casa.

Os quartéis portugueses em África reproduziam a cultura de origem dos seus ocupantes, sendo vulgar organizarem-se pequenas explorações agrícolas, onde se cultivavam produtos metropolitanos que melhoravam a dieta alimentar.

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